Tradicional caminhada na periferia de SP no Dia de Finados completa 20 anos

A tradicional Caminhada pela Vida e pela Paz que ocorre sempre no dia de Finados, 2 de novembro, na região do Jardim Ângela, zona sul paulistana, completou 20 anos nesta edição. O ato começou em 1996, quando o bairro foi apontado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a região urbana mais violenta do mundo, com 130 mortes para cada 100 mil habitantes. Na mesma época, foi criado o Fórum em Defesa da Vida, que reúne os moradores mensalmente para discutir melhorias para a região e formas de promover a paz. Eles destacam, como uma das conquistas dessa organização, a construção do Hospital do M'Boi Mirim, inaugurado em 2008.

A celebração teve início por volta das 8h30 na Paróquia dos Santos Mártires e seguiu em caminhada, por duas horas, para o cemitério do Jardim São Luís, onde ocorreu uma missa. “É lá que estão enterrados os nossos jovens devido a vulnerabilidade social”, destacou o psicólogo Agnaldo Vieira, um dos coordenadores do fórum. O tema deste ano é “Mortes e prisões não geral soluções de paz”. “O tema tem a ver com os 20 anos que é uma marca de resistência a ser comemorada e tem relação ao estado de violência com jovens negros da periferia. Tivemos a grande presença da juventude da região que votou na assembleia este tema”, explicou. 

Vieira destacou ainda que a proposta se contrapõe à redução da maioridade penal. “Uma das ações pós-caminhada será a elaboração de um tribunal popular aqui, onde vamos solicitar a construção de mais salas de aula, construção de parques lineares na região, bibliotecas públicas para aí, sim, se pensar em debater alguma questão em relação ao jovem. Não é possível reduzir a maioridade penal, se não temos acesso ao básico que é direito”, explicou. Entre os dias 29 e 1°, as oportunidades para a juventude foi um dos assuntos tratados na sexta edição do Fórum Social da Sul, que ocorre a cada dois anos, uma iniciativa do Fórum em Defesa da Vida.

A doméstica Adailza Nascimento, 66 anos, mora no Jardim Ângela há mais de 40 anos e faz questão e celebrar o Dia de Finados na caminhada. “Já perdi as contas de quantas vezes eu vim. Daqui ainda vou para outro cemitério visitar os túmulos do meu pai, minha mãe, meu irmão. Hoje, o dia é caminhada”, disse. A metalúrgica Izaura Aparecida, 42 anos, também participa desde o início e avalia que a união dos moradores trouxe melhorias para o bairro. “Melhorou, sim, mas ainda tem muita coisa para fazer. A gente ainda sofre muito preconceito, porque as pessoas acham aqui perigoso. Falar Capão Redondo [bairro da região] é a morte”, lamentou.

Durante a missa, no Cemitério São Luís, 20 jovens participaram da celebração vestindo camisas, representando cada ano da caminhada. O padre Jaime Crowe, da Paróquia Santos Mártires, destacou a camiseta do nono ano que tinha como lema “Amar e desamar”. “No Congresso Nacional, estão trabalhando para mudar o Estatuto do Desarmamento. Nós sabemos o quanto fizemos para ter ele aprovado. Agora, a serviço da indústria das armas, a bancada da bala quer mudar a lei”, criticou.

A Guarda Civil Metropolitana estimou que 650 pessoas participaram do ato. A organização não indicou um número.