"O Beijo no Asfalto" estreia no Solar de Botafogo

Escrita em 1960 e incluída entre as tragédias cariocas do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), o clássico O Beijo no Asfalto estreia no Rio de Janeiro em 31 de julho, sexta-feira, às 21h, no Centro Cultural Solar de Botafogo. Esta é quarta versão do texto que o diretor Marco Antonio Braz leva aos palcos – carioca da Tijuca, estudioso da obra do autor, rubro-negro fervoroso, radicado em São Paulo e fundador do Círculo dos Canastrões conhecido também como Círculo dos Comediantes, primeira companhia brasileira com repertório dedicado exclusivamente aos textos do dramaturgo, criada em 1994. “Marco Antonio Braz é uma autoridade em Nelson Rodrigues, eu invejo o conhecimento que ele tem da obra do Nelson”, declara Ruy Castro, jornalista e biógrafo, autor de “O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues”, lançado pela Companhia das Letras em 1993.

No elenco, os atores Marcos Breda (repórter Amado Ribeiro), Pedro Paulo Eva (delegado Cunha), Danielle Scavone (Selminha), Pamela Domingues (Dona Matilde, Dona Judith e a Viva), Cal Titanero (Arandir), Stella Portieri (Dália), Josias Souza (investigador Aruba e Werneck), Alvaro Gomes (Aprígio) e Leonardo Santos (fotógrafo, Pimentel, o vizinho)revelam ao público como se contrói o discurso do ódio, do preconceito e da hipocrisia em três atos e 13 quadros.

O enredo discute incesto, aborto, bullying, homofobia, violência policial e o poder da mídia, assuntos nada ultrapassados mesmo 55 anos depois de escrita a peça. "Todos os textos parecem ter sido colhidos a partir das páginas de qualquer jornal de hoje. Seus temas e enredos são conteúdo de editoriais”, completa Braz, ganhador do Prêmio Shell, Prêmio Contigo como melhor diretor pela peça A Alma Boa de Setsuan, com Denise Fraga, e Prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como melhor diretor por sua segunda montagem de O Beijo no Asfalto (2002).

Escrita a pedido da atriz Fernanda Montenegro para o “Teatro dos Sete”, a peça “O Beijo no Asfalto” foi inspirada num fato verídico – o atropelamento do repórter Pereira Rago, do Jornal O Globo. No chão, o jornalista, próximo da morte, pede um beijo a uma jovem que tentava socorrê-lo.

Nelson Rodrigues adaptou a história para os palcos e em sua trama, de final surpreendente, o atropelado da Praça da Bandeira pede um beijo a Arandir, um rapaz. Amado Ribeiro, repórter do jornal Última Hora, presencia o beijo na boca entre os dois homens e, junto com o delegado Cunha, explora o fato tornando-o escândalo midiático.

"Arandir é um símbolo de pureza que transformamos em bode expiatório, sobre o qual jogamos nossos recalques. O beijo que concede a um moribundo é um símbolo de aceitação da morte e de pureza de alma. Todas as dúvidas sobre este gesto só reforçam o caráter trágico dessa via-crucis suburbana", analisa o diretor que pretende abraçar as premissas do melodrama e conduzi-lo a seu grau mais alto de expressão do sentimento.

“A intenção é de trazer a peça para os dias de hoje com poucos elementos, sem alterar uma vírgula do texto original”. E com isso construir uma cena sagrada e ao mesmo tempo contemporânea, em que podemos desfilar os quadros desta irônica parábola cristã suburbana’, completa Braz. Para isso, a encenação privilegiará a iluminação cênica como forma de concentrar toda a ação dramática aos personagens e alguns poucos signos: jornais, cálice, caixão e arma. A cenografia é concebida por Telumi Helem e a iluminação é de Aurélio de Simoni.

Serviço:

Teatro Solar de Botafogo -- R. Gen. Polidoro, 180, Botafogo

Temporada: 31 de julho a 23 de agosto

Sextas e Sábados, 21h.  Domingo, às 19h

Ingressos: R$40 inteira, R$20 meia entrada.

Vendas: bilheteria -- terça a domingo, das 15h às 21h

Mais informações: (21) 2543-5411