Festival do Rio apresenta documentários sobre Mario Lago e Cauby

Vitrine anual da produção recente do cinema brasileiro, a Première Brasil traz em sua programação nesta edição do Festival do Rio dois documentários que abordam importantes artistas da música popular brasileira, que tiveram profunda ligação com a história da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Mario Lago, de Marco Abujamra e Markão de Oliveira, teve sua pré-estreia nacional ontem (05/10) no Cine Odeon Petrobras. Hoje, às 19h15, no mesmo cinema, será a vez da sessão de gala de Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, filme do cineasta Nelson Hoineff.

Selecionado para a mostra Retratos, da Première Brasil, o filme de Abujamra e Oliveira é uma cinebiografia de Mario Lago (1911-2002), compositor, ator, radialista, autor teatral e também militante político. Com vasto material de arquivo, incluindo algumas raridades, o documentário leva o espectador a um passeio de 96 minutos pela vida de Lago, conduzido pelo próprio artista.

“O mais difícil foi escolher o que ia ficar de fora, entre as cenas incríveis que reunimos”, conta o diretor Markão de Oliveira. Entre as imagens raras, o documentário resgata o conjunto vocal norte-americano Andrews Sisters cantando a marcha carnavalesca Aurora, composta por Mario Lago e Roberto Roberti, no filme Hold That Ghost, de 1941.

Entre os depoimentos, destaca-se o do ator Lima Duarte, que conta o início da amizade entre os dois na Rádio Tupi e a convivência de ambos nos tempos de boêmia. O documentário tem cenas rodadas no estúdio de radioteatro da Rádio Nacional, no antigo prédio da emissora, na Praça Mauá, com depoimentos dos radialistas Daisy Lucidi e Gerdal dos Santos, contemporâneos de Mário Lago na fase áurea da emissora.

Os 25 anos de carreira de Lago na televisão são retratados com cenas das novelas em que ele atuou. A participação do ator no cinema, em filmes como Terra em Transe, de Glauber Rocha, também não foi esquecida.

“Nos quisemos traçar um painel de toda a trajetória dele, mas tivemos que sacrificar muita coisa para não prejudicar o ritmo do filme. Conseguir passar para a tela tudo o que Mario Lago representou foi um grande desafio”, diz Markão, diretor e fotógrafo que tem vários documentários em seu currículo, entre eles A Vida É um Sopro (2007), sobre Oscar Niemeyer. 

Militante comunista, Mário Lago foi preso sete vezes por motivos políticos e teve seus direitos políticos cassados pela ditadura militar. De acordo com o diretor, o documentário procurou ressaltar a coexistência do militante com o boêmio na personalidade do artista. “Ele era militante com muita firmeza e ao mesmo tempo um bon vivant, que vivia intensamente a vida do Rio de Janeiro.Esta foi uma faceta muito interessante do Mario Lago”, destaca Markão de Oliveira. 

Versões de poesias de Lago musicadas por Lenine e Arnaldo Antunes completam o filme. Mario Lago terá mais duas exibições no festival, no domingo (6), às 16h, no Ponto Cine, em Guadalupe, zona norte do Rio, e na segunda-feira (7), às 14h, no Oi Futuro Ipanema, na zona sul. Segundo o diretor, deverá chegar às salas de exibição no próximo

Um dos quatro documentários de longa-metragem selecionados para a categoria hors-concours da Première Brasil, Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, retrata um personagem que, com mais de 80 anos, continua em plena atividade e mantém inalterado sua voz e seu carisma. Cauby Peixoto é o último expoente de uma geração de grandes cantores revelados nos anos 40 e 50, a era de ouro do rádio brasileiro.

Quem teve ideia a levar para o cinema a trajetória desse que é considerado por muitos colegas de profissão o maior cantor brasileiro de todos os tempos foi o próprio diretor Nelson Hoineff, cineasta que tem se destacado por seus documentários sobre personalidades controversas, como Santos Dumont, Chacrinha e Paulo Francis. “Comecei a pensar no filme há muitos anos, quando assisti a um show de Cauby aqui no Rio. Demorei a fazer o filme, foi uma negociação lenta”, conta Hoineff.

Ao longo de 90 minutos, o filme procura desvendar a lenda Cauby, um artista que desafia o tempo e faz de sua carreira um constante recomeço. Há mais de dez anos vivendo em São Paulo, Cauby Peixoto se apresenta regularmente, às segundas-feiras, no Bar Brahma, no centro da capital paulista. “Os shows estão sempre repletos, com um público que vai desde octogenários a uma garotada de 20 e poucos anos”, diz o cineasta.

A idolatria que cercava o cantor nos anos dourados da Rádio Nacional é um dos destaques do filme. O cerco das fãs, que chegavam a rasgar as roupas de Cauby,  era incentivado pelo empresário do cantor, Di Veras.

“Ele inventava coisas como vestir o Cauby com um terno só parcialmente costurado para facilitar as fãs rasgarem a roupa. O Di Veras de certa forma inventou o mito Cauby. Botar aquelas moças todas gritando o nome dele, agarrando. O Cauby é um talento sem paralelo, mas esse talento precisou de uma ajuda de marketing muito forte e o Di Veras foi o grande propulsor disso”, conta Hoineff.

Na visão do diretor, foi justamente esse marketing o que faltou para Cauby, em sua tentativa de uma carreira internacional nos Estados Unidos, no fim da década de 50, com o nome artístico de Ron Coby. “O filme tem vários depoimentos de pessoas sobre os motivos que levaram o cantor a não ter o sucesso esperado no exterior”, diz.

Para Hoineff, Cauby Peixoto é um profissional singular e um personagem enigmático. “Ele se dedica 24 horas por dia à sua arte. A qualquer momento em que você vai na casa dele, ele está estudando música como se fosse um iniciante. É também muito rígido em seus horários e hábitos.Não bebe nem uma gota de vinho, tem uma alimentação toda balanceada”, observa.

Depois da pré-estreia Cauby – Começaria Tudo Outra Vez terá mais duas exibições no festival, na terça-feira (8), às 16h, no Ponto Cine, em Guadalupe, zona norte, e na quarta-feira (9), à 1h, no Oi Futuro Ipanema, na zona sul. Depois, será levado a outros festivais de cinema, antes de começar sua carreira comercial nas salas de exibição de todo o país.