Exposição de Maria Martins mostra esculturas com toques surrealistas

Passando por temas como mitos indígenas, africanos e a relação com o feminino,  Maria Martins criou esculturas que foram na contramão das ideias que dominavam o mundo artístico brasileiro na década de 1940. “Parece que a sociedade nesse momento quer se pensar como em desenvolvimento, como progressista. Os artistas se voltam para isso e a arte concreta é a prova cabal disso”, destaca a coordenadora de Relações Institucionais do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Magnólia Costa.

O museu, que fica no Parque do Ibirapuera, zona sul da capital, abriga até 15 de setembro a exposição Maria Martins: Metamorfoses, que Magnólia diz ser a mais completa da artista no país. “Ela proporciona ao vistante uma compreensão mais completa do trabalho da artista”, diz a coordenadora sobre Maria que além de escultora, desenhou e escreveu poemas e artigos para jornais.

Ao trabalhar temas sensíveis da sociedade brasileira, como a relação com os povos tradicionais e a mulher, Maria Martins acabou tendo mais sucesso no exterior do que no Brasil. “Essas imagens com os seus corpos com formas distorcidas e em comunicação com formas vegetais, folhas, cipós, galhos retorcidos. Aquilo é visto como uma coisa muito chocante, que não era compatível com o gosto de nossas elites”, explica Magnólia. “São assuntos sobre os quais a nossa sociedade se cala muitas vezes. Pontos sensíveis da sociedade, que ainda é muito conservadora, machista. Ainda é discriminadora”, completa.

A entrada tardia no mundo das artes, a produção próxima ao surrealismo, mas difícil de ser enquadrada em um estilo, fizeram com que Maria Martins se tornasse uma figura peculiar no universo artístico. “Uma figura que é isolada em todos os sentidos. Tem uma produção extremamente original, pessoal, consistente", conta sobre a artista, morta em 1973, que produziu cerca de 200 esculturas em sete anos de atividade e fez a primeira exposição individual aos 47 anos de idade.

No ano passado, ela teve uma exposição individual na Documenta de Kassel, umas das mais importantes mostras de arte contemporânea, realizada a cada cinco anos na Alemanha. Um reconhecimento póstumo ao seu trabalho.

Os traços marcantes da escultora podem ser vistos em uma das obras mais famosas da artista, O Impossível, um dos destaques da mostra. “Ela mostra duas figuras, uma masculina e outra feminina. Essas figuras se relacionam entre si como se dessem um abraço. Só que elas não conseguem se unir plenamente porque das cabeças saem umas formas pontudas, longas, que impedem que elas se juntem. É uma obra que fala da impossibilidade de uma relação plena, talvez porque as ideias que estão na cabeça das pessoas impeçam isso”, descreve Magnólia.