Em “Toma um trago e lava o coração”, ator celebra três décadas de carreira

Direção do espetáculo é de Nana Caymmi

Num país onde Cultura não é artigo de primeira necessidade, completar 30 anos de uma carreira dedicada ininterruptamente às artes é um feito e tanto. O cantor, bailarino e ator Manoel Francisco está neste rol. “Não sei o que é trabalhar com outra coisa”, reconhece. Neste mesmo país, Nana Caymmi passou a vida declinando convites de artistas (consagrados em sua maioria) interessados em tê-la como diretora. Manoel Francisco conseguiu o que já era dado como impossível. É de Nana a direção do elogiado show “Toma um trago e lava o coração”, com o qual o artista celebra três décadas de carreira com 19 apresentações, entre julho e agosto,  em quatro teatros do Sesc.  

O convite para Nana dirigi-lo aconteceu de forma espontânea. Amigo da cantora, cuja casa freqüenta e com quem tem amigos em comum, Manoel Francisco foi, aos poucos, falando de seu projeto à intérprete. Nana sugeria uma canção aqui, lembrava de outra acolá. Conversas telefônicas foram trocadas até a diva ver-se envolvida pelo projeto. “E por que você não me dirige”, propôs. A “cantada” funcionou.

E não tinha como não funcionar. À frente de quatro músicos, Manoel faz um tributo pessoal à canção romântica. O repertório elenca ícones do gênero como Charles Aznavour, Dorival Caymmi, Édith Piaf, Evaldo Gouveia, Jair Amorim, Maysa, Roberto Carlos e Tom Jobim, entre outros. Se tal mistura pode soar eclética, tal impressão é diluída num roteiro cuidadosamente amarrado e que tem sua costura reforçada por poemas e fragmentos de textos de Mário Quintana, José Saramago e Miguel Torga. “As canções escolhidas estão ligadas à minha memória afetiva. São coisas que tocavam na vitrola lá de casa”, conta ele remetendo-se à sua infância e adolescência.

E foi na adolescência que sua vida artística começou. Mais exatamente no ano de 1983, quando, aos 16 anos, foi incorporado ao Balé do Teatro Guaíra, dirigido por Carlos Trincheiras. Era época da montagem de “O Grande Circo Místico”, cuja trilha inaugurou a parceria entre Edu Lobo e Chico Buarque. E a turnê levou o jovem a conhecer o Brasil e Portugal.

Do Guaíra para o Municipal do Rio de Janeiro era questão de (pouco) tempo. A entrada no tradicional teatro se deu em janeiro de 1985, quando obteve o primeiro lugar na audição para a casa. Três anos depois, trocava o Rio pela Europa. No Balé de Zurique, foi dirigido pelo lendário Uwe Scholz. Tempos depois, deu vazão ao lado ator-cantor integrando as montagens itinerantes de “Cats” e do “Fantasma da Ópera”. Durante 13 anos, viajou pelo Velho Mundo. Dependendo de onde estivesse, o repertório de um dos musicais era apresentado em inglês ou em alemão. Tal experiência foi crucial para Francisco aprimorar seu canto.

Mas o Brasil o chamaria de volta. Veio de Dalal Achcar o convite para o artista voltar ao Municipal – de onde é funcionário até hoje. Foi na primeira gestão de Dalal como presidente do Municipal que Francisco voltou para os seus. Reencontrou velhos amigos e fez novos. Foi par ou mesmo coreografado por grandes nomes da dança como Cecília Kerche, Nora Esteves, Márcia Haydée, Richard Cragun, Natalia Makarova, Jorge Donn e, claro, Ana Botafogo. Ana participará, aliás, de duas apresentações de “Toma um trago...”, dias 03 e 04, no Sesc Tijuca.

Se as sapatilhas foram aposentadas com o bailarino ainda em forma, a dança não foi deixada de lado (ele é professor convidado de grupos como Corpo e Deborah Colker).  Francisco saltou mais longe. Voltou aos musicais em “A garota do biquíni vermelho”, de Artur Xexéo; foi assistente de Marília Pêra na remontagem de “Doce Deleite”, atuou e coreografou a montagem cinematográfica de “A dona da história”, dirigida por Daniel Filho, além de abraçar sua porção cantor com mais força. Tal dedicação pode ser percebida na reação da platéia que vai assisti-lo em “Toma um trago e lava o coração”. Desde que o show estreou, em 2011, ao fim de cada sessão, é comum  perguntarem onde comprar o CD (ainda inexistente) do show. Coisa de quem aceitou o trago e, de coração lavado, quer prolongar o prazer da embriaguez.

Serviço:

 Locais e datas dos shows:

Sesc Tijuca: 3 e 4; 10 e 11; 17 e 18; 24 e 25 de Julho (quartas e quintas do mês). Rua Barão de Mesquita, 539. Tel: (21) 3238-2139

Sesc Niterói: 5 de julho (sexta-feira). Rua Padre Anchieta, 56, Centro. Tel: 2719-9119

Sesc Nova Iguaçu: 12 e 13; 19 e 20 de Julho (sextas e sábados). Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá. Tel: 2797-3001

Sesc São Gonçalo: 2 e 3 de agosto (sexta e sábado). Av. Presidente Kennedy, 755. Tels: 2712-2342 e 2712-3166

Sesc Madureira: 9 e 10; 16 e 17 de agosto (sextas e sábados). Rua Ewbanck da Câmara, 90. Tel: 3350-7744

Hora: 20h

Ingressos: R$ 8 (inteira), R$ 4 (meia) e R$ 2 (associados Sesc)