Crítica de teatro: 'A Família Addams' 

A Família Addams surgiu, inicialmente, como história em quadrinhos nos anos de 1930, assinada por Charles Addams. Em 1964, teve grande sucesso como série de televisão nos Estados Unidos e, a partir daí, virou desenho animado da Hanna Barbera nos anos de 1970. Na década de 1990, foram feitos também três longa-metragens com os personagens da série original, que, do mesmo modo, obtiveram êxito de público e crítica, principalmente devido ao excelente trabalho do elenco, do qual faziam parte Angelica Huston e o inesquecível Raul Julia.

O musical da Broadway que estreou em 2010, com textos originais de Marshall Brickman e Rick Elice e canções de Andrew Lippa, foi recentemente adaptado para os palcos brasileiros por Claudio Botelho, tendo chegado ao Rio de Janeiro após temporada de sucesso em São Paulo. Como a montagem em cartaz no VIVO RIO é uma réplica daquela apresentada em Nova York, toda a equipe técnica, incluindo o diretor Jerry Zaks, buscou, sobretudo, reproduzir o espetáculo norte-americano.

Apesar de o objetivo principal da produção ser o de exibir, com as mesmas características, um espetáculo já testado e aprovado, é necessário destacar que a execução brasileira tem méritos próprios e mostra o alto nível de profissionalização de nosso teatro, principalmente devido ao aparecimento, nos últimos dez anos, de um contingente razoável de atores com aptidão para o canto.

Nesta versão de A Família Addams, desenho de luz, cenários, maquiagem, efeitos especiais, figurinos e som contribuem para que o público entre em contato com o que há de mais sofisticado em termos de criação de musicais. Impressionam, assim, a rapidez das trocas de cenário, a qualidade do corpo de bailarinos, a expertise da direção e a ótima coreografia de Sergio Trujillo.

O texto explora comicamente a já conhecida discrepância entre os hábitos estranhos, um tanto “violentos” dos Addams, e os “bons” costumes da sociedade norte-americana, representados, aqui, pelas tradições de uma família “normal”, com a qual Wandinha, a primogênita de Gómez se relaciona. Contudo, não se preocupa em analisar de modo mais aprofundado, como em algumas versões feitas para o cinema, o fato de que, na verdade, são os membros do clã Addams as personagens positivas, autênticas, de quem os hipocritamente “adequados e gentis” se diferenciam. O fato de a peça não enfatizar muito essa inversão dilui, de certo modo, o tom crítico que toda obra sobre os Addams costuma carregar.

Os figurinos seguem a inspiração dos quadrinhos, com sua bizarrice aliada a um toque de contemporaneidade. A tradução de Cláudio Botelho, também responsável pela adaptação das canções, funciona muito bem no palco, mas sua tentativa de aproximar o material do tipo de cultura consumida pelo público brasileiro hoje nem sempre é bem sucedida.

O elenco tem, em geral, rendimento acima da média. Laura Lobo (Wandinha), Claudio Galvam (Fester), Beto Sargentelli (Lucas), Iná de Carvalho (Vovó), Rogério Guedes (Tropeço), Gustavo Daneluz (Feioso), Paula Capovilla (Alice) e Wellington Nogueira demonstram completo domínio dos fundamentos necessários para uma atuação marcante em espetáculos desse tipo, o que, mais uma vez, reforça a maioridade alcançada pelo gênero musical no Brasil. Eduardo Boaventura possui bela voz e figura. Marisa Orth explora a sensualidade de sua Mortícia. Ambos, apesar de carismáticos e ótimos intérpretes, soam um tanto brasileiros demais.

A Família Addams é entretenimento de boa qualidade; contudo, poderia surpreender mais.

Cotação: BOM