Crítica: "Anna Karenina"

Escrever sobre filmes é, quase sempre, uma tarefa árdua que demanda tempo, atenção e escolhas, mas, sobretudo, a transfiguração de uma série de pensamentos numa síntese que corresponda a uma leitura e que consiga estabelecer linhas de comunicação com outros. Assim também o é o ato de produzir filmes. E, como alguns textos, alguns filmes extrapolam estes conceitos formatadores resultando em alguma coisa muito maior, difícil de nomear ou adjetivar sem recorrer aos superlativos e aos truques de ou da linguagem. 

Anna Karenina, novo filme do premiado Joe Wright, é um desses casos onde o que se tem como resultado final é tão extraordinário que faltam, por exemplo, similares aos quais pareá-lo para, assim, estabelecer um marco-zero de onde partir para a tal “árdua tarefa”.

Em mais esta adaptação para cinema, o épico romance de Liev Tolstói encontra em Wright um porta-voz que se comporta como um catalisador que, no movimento de transformação da matéria primeira, enxerta-a de vigor criativo gerando uma obra que – filha do clássico literário – é autônoma, emancipada e corajosa, como a protagonista do entrecho fabular.

Talvez seja a metáfora genealógica a mais profícua para seguir à carga, para tanto, consideremos que se a mãe desta obra é a literatura, foi legada ao pai – o teatro – a tarefa de educá-la para o casamento com o generoso cinema. Numa tentativa de elucidação, vamos aos fatos!

A fábula: o romance de Tolstói, de 1873, conta, em suas quase novecentas páginas, a história de Anna (Keira Knightley), estabelecida aristocrata casada com um importante funcionário do governo, Karenin (Jude Law), com quem vive e tem um filho na São Petersburgo da primeira metade do século XIX. Em viagem de visita à irmã com problemas no casamento, Anna conhece o jovem Alexei Vronsky (Aaron Taylor-Johnson) com quem, apesar de resistir, se envolve de maneira a por em xeque seu casamento e sua posição social.

O filme: segundo o diretor, a base da linguagem que se estabelece como narrativa surge da memória de uma passagem do livro Natasha’s Dance: A Cultural History of Russia, onde o britânico Orlando Figes descreve a alta sociedade de São Petersburgo com pessoas vivendo como se estivessem em um palco de teatro.

A tese de Figes é experimentada, então, como geradora da “encenação” (verbete quase que estritamente teatral que, em termos gerais, significa a ideia que arregimenta um espetáculo): Moscou e São Petesburgo são então levadas, efetivamente, a um teatro e as locações são substituídas por cenários que descem dos urdimentos e são trocados bem ali, aos olhos do espectador, assim como um sem número de figurinos são trocados (como troca de figurino mesmo, sem o verossimilhante engodo de que a personagem está se trocando; é o ator quem se veste para a próxima cena), assim como determinado cenário realista dá lugar a uma composição visual com o auxílio da ilusão gerada pelo palco italiano, ilusão essa que será quebrada segundos depois quando vemos as cordas da maquinaria, o avesso do cenário, as coxias etc. A metáfora com a sociedade russa czarista é clara e poderosa, tão poderosa que escapa do seu significado inicial e, de socapa, põe em evidência a própria carpintaria do fazer artístico.

É sedutor o jogo que se estabelece no desvendar e esconder, no usar um truque e mostrá-lo truque… A cada nova cena, acende no espectador uma curiosidade imensa de descobrir que parte do cenário se transformará em outra, que ator soltará um botão do figurino e será outro personagem; tudo assim, assumido.

Olhando de soslaio o que foi dito até agora, pode parecer que o filme caiu na armadilha da linguagem; ledo engano. Só não vale gastar espaço com elogios a uma trama que faz sucesso há já quase um século e meio. É louvável, isso sim, o trabalho de Tom Stoppard (Shakespeare Apaixonado), na adaptação do romance para a tela. Louváveis também são os trabalhos dos indicados ao Oscar Seamus McGarvey (fotografia), Jacqueline Durran (figurinos), Sarah Greenwood e Katie Spancer (direção de arte), e, claro, Dario Marianelli (trilha original).

Sem dúvida, os pouco mais de 120 minutos merecem atenção demorada nos seus mais diversos aspectos, sendo esta rápida divagação um convite para que se veja este excelente exemplo de cinema-arte ou do grande cinema (mesmo sendo estes termos obsoletos).

Cotação: **** (Excelente)