Crítica de teatro: 'Oportunidade Rara'

Hamilton Vaz Pereira, diretor, autor, ator e compositor, é um nome sempre lembrado pela liderança que exerceu no grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, cujo trabalho marcou a história do teatro carioca dos anos de 1970 pela irreverência e pela introdução de um tipo de criação coletiva construída  através de um processo de improvisações. 

Como resultado, tinha-se uma narrativa fragmentada, que se voltava para o universo cotidiano dos jovens sob a censura do regime militar, numa linguagem coloquial e cômica, expressão dos anseios de uma classe média intelectualizada, tipicamente urbana.

Seu estilo muito particular de fazer comédia acabou influenciando outros autores de sucesso da cena carioca dos anos de 1980 e 1990, apesar de ter-se mantido sempre como uma contribuição especial nesse panorama. 

Oportunidade Rara, espetáculo atualmente em cartaz no Teatro dos Quatro, reúne cinco histórias independentes entre si em trama e temática.  A primeira, “Humanidade Suicida”, fala do cotidiano de um casal que viu seu filho crescer e, agora, procura um sentido para a própria existência.  A segunda, “Malditos Filhos de Adão”, conta a história da visita de uma celebridade em decadência a uma comunidade carente.  A terceira, “Business e Saúde Corporal”, se desenvolve num consultório onde se oferecem massagens.  A quarta, “Bonito”, trata de duas empresárias do ramo de moda praia que se encontram diante da chance de realizar um ótimo negócio.  A última, “Volta Depressa”, mostra um dia na vida daqueles que se preparam para retornar à terra natal e dos que permanecem longe de suas cidades ou países, vivendo uma vida estrangeira.

Apesar de apresentarem enredos muito diferentes, as histórias têm em comum o mesmo tipo de estrutura: são obras pouco fechadas, sem um eixo dramático forte que determine a relação de causa e consequência típica da construção dramatúrgica tradicional.  Personagens e acontecimentos existem dentro de um fluxo mais próximo daquele do gênero épico, que parece querer incorporar o acaso e a espontaneidade do cotidiano.  Nesse contexto, o humor é resultado do absurdo e da estranheza, sem que haja uma especulação maior a respeito disso.

“Malditos Filhos de Adão” e “Bonito” são as histórias que alcançam um resultado mais positivo dentro da proposta apresentada, enquanto que “Humanidade Suicida” e “Volta Depressa” se mantêm num patamar menos satisfatório.

O desempenho do elenco é muito coeso.  Lena Brito, Bel Kutner, Luana Martau e Saulo Rodrigues exploram à perfeição as diversas possibilidades que o material cômico oferece.  A direção de Hamilton Vaz Pereira destaca a liberdade que o texto propõe e usa muito bem, para marcar a ação, uma trilha sonora composta por canções inéditas cantadas e tocadas ao vivo pela banda formada por Iuri Brito, Thomas Jagoda, Guilherme Lírio e Pedro Fonte.

O cenário de Hélio Eichbauer cria, através do uso de poucos objetos, um espaço agradável, onde surgem os cinco ambientes do espetáculo.  Os figurinos de Antônio Medeiros são versáteis e bonitos.  A iluminação de Jorginho de Carvalho acompanha a boa qualidade técnica do todo.

As peças de Hamilton Vaz Pereira, em geral, não são apreciadas por aqueles que vão ao teatro com uma ideia pré-concebida e fechada a respeito de como deve se desenvolver um texto dramático. OPORTUNIDADE RARA não foge a essa regra e é, portanto, mais indicada aos que buscam se surpreender, aos que aceitam certas incoerências e aos que gostam de desfrutar do espírito meio irresponsável e livre proposto pela obra.  No entanto, os que procuram uma densidade maior poderão sair frustrados.

Cotação: Regular 

Oportunidade Rarade Hamilton Vaz Pereira

Em cartaz no Teatro dos Quatro/Shopping da Gávea

Segundas, terças e quartas-feiras, às 21 horas