"A morte de Brubeck, aos 92, é semelhante à de um velho amigo"

"Que continua vivo. Não só na memória, mas numa riquíssima discografia" 

Já apreciador do jazz, depois de uma formação musical clássica, ouvi o quarteto de Dave Brubeck ao vivo, pela primeira vez, em agosto de 1960, em Nova York, no há muito falecido Basin Street East, na Rua 48.

Foi uma epifania para um frustrado estudante de piano que nunca tinha ido além do Prelúdio em lá menor (o nº 4) de Chopin. No ano anterior, aquele primoroso conjunto de jazz (Paul Desmond, sax alto; Joe Morello, bateria; Eugene Wright, baixo) tinha gravado o LP Time out (Columbia), cujo compacto - tendo de um lado Take five e, do outro, Blue rondo à la turk - foi o primeiro disco de jazz instrumental a vender 1 milhão de cópias.

Eu já conhecia a música de Brubeck desde a compra do 10 polegadas Jazz at the college of the Pacific (Fantasy), gravado em dezembro de 1953 (ainda com o baterista Joe Dodge e o baixista Ron Crotty), e do álbum Jazz goes to the college, de 1954, o primeiro para a Columbia, e que contém o inesquecível Balcony rock. Ele já tinha fama, e chegou à capa da revista Time em 1954, por estar conquistando o público jovem das universidades americanas em concorridos concertos em diversos campi do país.

Mas aquele primeiro contato direto com o quarteto – numa mesma noite em que o outro combo era o quinteto de Julian Cannonball Adderley (com o irmão Nat na corneta e Bobby Timmons ao piano) – selou definitivamente o meu consórcio com o jazz.

Assim é que a morte de Brubeck, aos 92 anos bem vividos, é – pelo menos para os jazzófilos mais idosos - semelhante à de um velho amigo que partiu de uma vez por todas, mas que vai continuar vivo. Não só na memória, mas numa riquíssima discografia (e no YouTube também).

No meu livro Obras-primas do jazz (Jorge Zahar, 1986) comecei o capítulo sobre Dave Brubeck & Paul Desmond com um comentário do legendário pianista stride Wille “The Lion” Smith (1893-1973), que ouvia um St. Louis blues tocado por Brubeck, sem saber de quem se tratava, num dos “blindfold tests” de Leonard Feather para a revista Downbeat. O comentário era o seguinte: “Desde o minuto em que eles começaram a tocar, aquele feeling, aquele beat estavam lá. Gosto do pianista porque ele toca como os sujeitos de que falei, em Havestraw, onde os blues nasceram”.

Nos anos 60 e 70, alguns jazzófilos “puristas” torciam o nariz para o pianista branco, “sem swing”, e não podiam imaginar que ele mereceria um tal atestado de “The Lion”, eminência negra da Harlem Renaissance, na década de 30. Da mesma maneira, naquela longínqua noite no Basin Street East, há 52 anos, o hard bopper Bobby Timmons admirava o pianista branco de formação erudita que estudara com Darius Milhaud. E a recíproca, é claro, era verdadeira.

Dave Brubeck procurou e conseguiu – ao lado do notável saxofonista Paul Desmond – uma entente cordiale entre a espontaneidade do jazz e os valores consagrados da música “séria”. O seu quarteto tornou-se o mais ouvido jazz combo das décadas de 50 e 60, talvez por ser mais “acessível” do que o quinteto de Miles Davis e mais “fácil” do que o Modern Jazz Quartet do também pianista-compositor negro John Lewis.

Como pianista, Brubeck sintetizou, com técnica brilhante, a malícia dos pianistas de jazz e algo da eloquência das obras de Chopin e Rachmaninoff, os quais costumava citar com a mesma tranquilidade com que fazia referências a Art Tatum, Earl Hines, Horace Silver ou Lennie Tristano. Pode-se dizer que ele antecipou concepções mais recentes de um jazz composicional, como as dos pianistas Keith Jarrett e Brad Mehldau. E também de new stars como Jason Moran.

Há dois anos, de pacemaker novo, Brubeck celebrara os seus 90 anos no clube Blue Note, Nova York, à frente do quarteto que ainda liderava com Bobby Militello (sax alto), Michael Moore (baixo) e Randy Jones (bateria). Militello sucedera Paul Desond (1924-1977), em 1982.

A Sony aproveitou o 90º aniversário do icônico músico para lançar o CD duplo Legacy of a legend, também disponível em MP3. Trata-se de uma antologia de 21 faixas, escolhidas pelo próprio Brubeck, em discos gravados para a Columbia Records entre 1954 e 1970. Naquela ocasião, a Turner Classic Movies (TCM), por sua vez, promoveu a estreia do documentário Dave Brubeck: In his own sweet way – uma produção do ator-diretor Clint Eastwood, que é jazzófilo, pianista amador, e pai do baixista (profissional) Kyle Eastwood.

São heranças do grande pianista-compositor que estão à disposição de todos os seus admiradores e daqueles que querem conhecê-lo.