Kiss diz estar em melhor fase e avisa: banda nunca irá parar

Dezenas de pessoas se amontoam em frente a uma tenda, procurando se organizar para cumprir o objetivo da noite: conhecer o Kiss, para a maioria ali, a maior banda do mundo. Alguns metros à frente, uma equipe do Terra é escoltada por seguranças a uma área coberta para um encontro exclusivo com a banda antes de seu show em São Paulo. Dois veículos importados de luxo aguardam a chegada dos ilustres passageiros. No longo corredor com piso de concreto surge um rosto conhecido, posando para fotos enquanto roda rapidamente duas baquetas nas mãos. A pintura em seu rosto mostra que é Eric Singer, "The Catman".

Minutos depois, outra figura familiar abre uma porta e caminha, atraindo olhares por seu aspecto físico: maquiagem branca com uma estrela negra em volta do olho esquerdo, cabelos armados e botas que o deixam com mais de dois metros de altura. É Paul Stanley, The Starchild.

Um terceiro gigaante sai de outra sala, esta identifica com uma placa: sala de maquiagem escrita em inglês. É Gene Simmons, The Demon, que usa armadura e observa atentamente a movimentação ao redor. Por último, um quarto sujeito aparece, com sorriso tímido e roupas repletas de adereços prateados. É Tommy Thayer, que usa a maquiagem do Spaceman. Os quatro se juntam de costas a uma parede e conversam com o Terra.

Ao longo de quase quatro décadas, as trocas de formação no grupo foram constantes. Nas quatro passagens anteriores pelo Brasil, o Kiss trouxe um line-up diferente em cada uma delas. Da formação original, restaram Stanley e Simmons, que além de serem, respectivamente, guitarrista e baixista do grupo, são as vozes por trás dos eternos hits lançados pela banda. No entanto, a atual turnê, Monster World Tour, que ainda passou por Porto Alegre e Rio de Janeiro nos últimos dias, trouxe pela segunda vez consecutiva ao País o mesmo conjunto de músicos que haviam estado por aqui da última vez.

"Isso porque este é o line-up mais estável que já tivemos", explica, de forma austera, Stanley. "Nós passamos ótimos momentos juntos, não há problemas, não há intrigas. Além do mais, a banda atual está soando otimamente e acredita perfeitamente em tudo o que ronda o significado de ser o Kiss."

Tal significado pode ser traduzido como comprometimento. Além das toneladas de equipamentos e da parafernália de luzes, fogos de artifício e efeitos visuais que levam a cada cidade de sua agenda, o quarteto tem como praxe trabalhar ao máximo nos momento em que está em turnê. Nas horas que antecederam o show na capital paulista, os músicos receberam fãs à tarde, realizaram uma apresentação acústica e organizaram duas sessões de autógrafos, batizadas de Meet and Greet, todas com ingressos esgotados.

Claro, como os dólares estão sempre atrelados ao grupo, as entradas para os ilustres encontros tiveram seu preço: US$ 900 por cabeça. Isso, no entanto, não anula o discurso. "Acreditamos que devemos dar às pessoas o melhor show possível, para garantir que elas façam valer o seu dinheiro, e fazê-las sempre acreditar que podem conquistar qualquer coisa na vida. Todo mundo é um membro do Kiss", discursa, com clichês e frases de efeito, Stanley, apoiado pelos olhares atentos dos colegas de estrada.

O clima de espetáculo domina os integrantes da banda bem antes da apresentação da noite. À exceção dos membros da produção, ninguém pode vê-los sem suas famosas pinturas faciais, a exemplo do que impunham na década de 1970, quando o grande público sequer conhecia seus rostos. Fotografias de cara limpa são terminantemente proibidas, com profissionais da área tendo de assinar uma cláusula obrigatória sobre isso, em contrato redigido em inglês.

A segurança nos bastidores também é grande. Dois sujeitos com altura semelhante à dos músicos, com a diferença de não usarem saltos plataforma, os cercam a cada passo dado. Na verdade, com uma exceção: o baterista Eric Singer, que assumiu a "máscara" antes pertencente a Peter Criss, a de "homem-gato", caminhava solto e descontraído pelo local, cantarolando canções em alto e bom som pelos corredores do sambódromo, onde estavam instalados os camarins do quarteto. "Que cara é essa? Você está com medo?", indagou, sorridente, a uma garota da organização que o mirava enquanto aguardava seus colegas para a entrevista.

A teatralidade também começa tão logo as maquiagens estão prontas. Ao menos para o mais performático dos integrantes, Gene Simmons, que desde a década de 1970 interpreta no palco um demônio cuspidor de sangue e fogo. Enquanto o quarteto conversava rapidamente com um canal de TV, o baixista deixou seu posto ao lado dos colegas em três oportunidades para brincar com um funcionário da promotora da turnê no Brasil, "agarrando" seu pescoço como se fosse esganá-lo, colocando a mão sobre suas orelhas ou apenas se aproximando e olhando-o de cima para baixo de forma intimidatória.

Mas, conhecido por seu tino para os negócios e paixão pelo dinheiro, Simmons ganha um ar de total seriedade ao falar de qualquer assunto relacionado à banda. Principalmente se este estiver de alguma maneira ligado ao line-up anterior do Kiss, formado por Ace Frehley e Peter Criss, respectivamente, guitarrista e baterista originais do grupo, demitidos pouco mais de cinco anos depois de terem se reunido ao grupo, na bem-sucedida Reunion Tour, de 1996.

"A formação anterior teve muitos problemas. Você não pode jogar futebol se alguns dos atletas do seu time estão drogados ou bêbados. Se eles são criadores de problemas", alfinetou, exaltando a prolífica fase em que o grupo vive, com dois discos de estúdio lançados em um intervalo de apenas três anos - antes disso, o último trabalho de estúdio do Kiss havia sido Psycho Circus, de 1998. "A razão pela qual conseguimos fazer Sonic Boom (2009) e, pouco depois, Monster, foi porque este time é sólido. Todos por um e um por todos."

As décadas na estrada que arrecadaram milhões em vendas de discos, turnês e produtos licenciados dos mais variados - como camisinhas, bonecos, revistas em quadrinhos e até caixões - também proveu tranquilidade profissional à banda. Se, nos anos 1970, quando iniciou sua carreira, o grupo sofria pressão para gravar discos em períodos de tempo reduzidos, chegando a lançar mais de um trabalho no mesmo ano, hoje Simmons garante que tudo ocorre naturalmente.

Dessa forma, novos álbuns do Kiss podem surgir daqui um ou dez anos, dependendo da vontade de seus líderes. "Nós poderíamos estar no estúdio agora, fazendo um novo disco, mas levamos o tempo que precisamos levar. Quando você está pintando um quadro, criando alguma coisa, não pode existir um prazo definido para finalizá-lo. Você tem o tempo que quer e que precisa para ele ficar bom", explica. "Como a fase é incrível, conseguimos fazer esses dois lançamentos em um período muito menor do que o da maioria das outras bandas."

Enquanto os dois líderes do grupo discorrem sobre as diferenças de suas fases anteriores, Eric Singer, mexendo-se inquietamente, e Tommy Thayer, com sorriso constante, apenas observam. Isso até o momento em que os quatro são questionados sobre a ausência de hits da fase sem "máscaras" nos shows. "Não, mas ainda tocamos Hide Your Heart, Tears are Falling", defendem-se o baterista e o guitarrista, citando músicas apresentadas durante o encontro fechado com fãs que precedeu o espetáculo principal, já na arena.

"É verdade. Hoje tocamos músicas de todas as fases, de surpresa, aquelas mais pedidas pelos fãs, que raramente tocamos ao vivo. De fato, as executamos muito bem", prosseguiu Stanley. Mas por que, então, não incluí-las também no set-list principal, para serem acompanhadas por todo o público? "Bem, no repertório atual temos Lick it Up. Há sempre uma enorme gama de canções que podemos tocar, então precisamos escolher. Na próxima vez que viermos a São Paulo, poderemos tocar algumas das outras no show também."

Para a eternidade

Apesar de o visual ser, à exceção de um outro detalhe, o mesmo daquele adotado quase 40 anos atrás, os sinais da idade são cada vez mais nítidos entre os músicos do quarteto. Stanley ainda canta, pula, dança e até arrisca uma "voltinha" de tirolesa até um palco localizado ao centro da pista, de onde comanda o clássico Love Gun, mas seus gritos agudos claramente não são mais os mesmos, soando muitas vezes quase inaudíveis ao público, devido à perda de potência de sua voz.

E não poderia ser diferente: hoje, o Kiss é uma banda de cinquentões e sessentões. Stanley está com 60 anos, Gene, com 63, e Singer e Thayer, respectivamente, com 54 e 52 anos. A média de idade é semelhante à dos integrantes de grupos como Judas Priest e Scorpions, que decidiram frear suas carreiras, fazendo turnês de curta duração e encerrando, ou espaçando cada vez mais, a produção de novos discos.

Stanley, no entanto, garante que a prolífica fase atual não é passageira e sim a realidade do quarteto daqui para frente. "Não há paradas, pois o Kiss nunca pode parar", diz, abrindo a possibilidade até para um futuro do grupo sem ele e Simmons, uma vez que a banda já teria superado há muito a importância de seus fundadores. "Mesmo que nós paremos, o Kiss pode e deve continuar. Porque nós somos o Kiss hoje, mas, assim como ocorre com ótimos jogadores de futebol por aí, seus times seguem em frente quando eles os abandonam", metaforizou.

As dezenas de pessoas que se amontoavam do lado de fora da área dos camarins continuam ali, aguardando a chegada de seus ídolos para com eles pegar autógrafos e tirar fotos. O tempo passa, o horário do show se aproxima. Subitamente, a entrevista é encerrada. Seguranças cercam apressadamente os quatro músicos e avisam que ninguém sai do local até eles o fazerem. Com a mesma pose teatral dos anos 1970, o Kiss caminha calmamente, cada um em seu personagem, para dois dos veículos de luxo estacionados na área externa do local. Singer volta a cantarolar animadamente, sem timidez, para todos no ambiente ouvi-lo.

Em vez de se sentarem nos assentos dos carros, no entanto, eles se dividem em duplas e se acomodam nos porta-malas, com as pernas balançando para fora. Fazem pose, parecem garotos em início de carreira. Mas é o Kiss, buscando sempre um grande estilo para manter a magia de sua imagem na mente de seus admiradores.