“Com todo respeito aos meninos, mas a voz do Brasil é feminina”, diz Tulipa 

Cantora, que representa uma das vozes da nova geração da MPB, lança o seu segundo CD no Rio

“O Brasil tem uma eterna geração de vozes femininas. Com todo respeito aos meninos, mas a voz do Brasil é feminina. De Dalva, Angela, Gal, Elis, Marina, Zélia, Gadú, Bethânia, Joyce, Ná, sei lá. Tem muita mulher na linha de frente”. Esta foi parte da declaração dada ao JB pela santista Tulipa Ruiz, que chega ao Rio de Janeiro no dia 15 de setembro, em turnê de lançamento do seu segundo álbum Tudo Tanto, no Circo Voador, a partir das 22h.

O novo disco, disponível para download gratuito no site oficial da cantora, tem produção de Gustavo Ruiz, arranjos de cordas e sopros de Jacques Mathias. Selecionado no edital nacional 2011 do Natura Musical, o álbum traz onze faixas, incluindo parceria com Criolo, com participações de Lulu Santos, São Paulo Underground, Daniel Ganjaman, Kassin e Rafael Castro.

Tulipa assina sozinha, ou com parceiros, todas as onze faixas. Em Tudo tanto, a cantora está ainda mais vigorosa e à vontade. Ela explora novos caminhos em sua extensão vocal, experimentados e aperfeiçoados no palco e no intervalo entre os dois registros em estúdio. Sua voz navega com segurança tanto em tons mais graves quanto em agudos extremos, desenhando melodias sinuosas. Além disso, suas composições amadureceram, em termos de texto e temática, sem abandonar o humor e a irreverência do trabalho anterior.

“O Efêmera (seu primeiro CD) é um disco de fotografias e, em Tudo tanto, as fotografias viraram radiografias. Ele é mais subjetivo, mais denso. É um disco de camadas. A sonoridade que desenvolvemos durante a turnê de Efêmera desembocou nesse disco novo. Nós nos fortalecemos como banda, experimentamos coisas novas, timbramos mais. Tudo tanto é resultado dessa convivência em grupo”, fala a cantora sobre o novo disco.

Carreira premiada e espontânea

Nascida em Santos, Tulipa cresceu na cidade mineira de São Lourenço. Seu contato com a música começou cedo, influenciada pelo pai, Luiz Chagas, jornalista e guitarrista da histórica banda Isca de Polícia, de Itamar Assumpcão. “Cresci vendo meu pai debruçado sobre um violão e minha mãe trocando discos na vitrola. A música era uma coisa das internas, da família”, conta a artista.

Na adolescência, a cantora teve um programa de rádio, fez coral e estudou por cinco anos canto lírico com a maestrina Edna de Sousa Neves. Mudou-se para São Paulo, onde estudou Multimeios e, apesar de ter integrado bandas durante a faculdade, tratava a música como hobby. Formada, trabalhou como ilustradora e redatora por anos até que começou a participar informalmente de alguns projetos musicais, e decidiu criar a sua própria banda.

Depois de sua estreia bem recebida no projeto Prata da Casa - promovido pelo Sesc-Pompeia e que abre espaço para novos nomes -, Tulipa gravou seu primeiro disco Efêmera, lançado em show, eleito o melhor do ano pelo jornal Folha de S. Paulo, no Auditório Ibirapuera. O CD também foi considerado o melhor disco de 2010 pela revista Rolling Stone, e um dos melhores da década pela Folha de S. Paulo. A música que dá título ao disco faz parte da trilha sonora do Fifa 2011, um dos videogames mais populares do planeta, e Só sei dançar com você é trilha sonora de uma das protagonistas da novela Cheias de Charme, da TV Globo. O sucesso do álbum ainda rendeu a Tulipa o título de melhor cantora de 2011 no Prêmio Multishow pelo júri especializado e uma indicação como artista revelação no VMB do mesmo ano.

A cantora se consagrou ainda mais quando se apresentou  na nova edição do Rock In Rio, no ano passado. Estar ao lado da Nação Zumbi era um sonho por si só. Isso amplificado ‘n’ vezes, considerando as dimensões do Rock In Rio, era uma coisa absolutamente impensada. Tipo sonho maluco do Gugu. A lição desta experiência só pode ser uma: é possível", conta a cantora.  

Veja a seguir a entrevista que o Jornal do Brasil fez com a cantora, que se encontrava no início da turnê, em Salvador.

JB: Os prêmios musicais oriundos do primeiro CD trouxeram a certeza de que precisava para permanecer na carreira de musicista?

Tulipa: A certeza veio antes do Efêmera. Gostava do que fazia e, quando vi que conquistei meu irmão e meu pai, parti para conquistar a minha banda. As respostas, tanto do público quanto da crítica, foram prêmios. Ela me deu a certeza quanto ao trabalho. Não tive a certeza nem tenho de permanecer. Mas de que é legal. Estou fazendo uma coisa legal. Vamos nessa.

JB: Como encara esse rótulo de uma das representantes da nova geração de vozes femininas da MPB?

Tulipa: Rótulos são rótulos. Sou uma representante da minha turma. Conheço Tiê, Dudu, Tatá, Thiago, Céu, Jeneci, Karina. Um monte de gente faz tempo. Conheço, vi os primeiros shows. Dividimos. O Brasil tem uma eterna geração de vozes femininas. Com todo respeito aos meninos, mas a voz do Brasil é feminina, da Dalva, Angela, Gal, Elis, Marina, Zélia, Gadú, Bethânia, Joyce, Ná, sei lá. Tem muita mulher na linha de frente.

JB: Qual a sua percepção do mercado musical na era tecnológica?

Tulipa: O mercado musical está aí para ser explorado, se é que é essa a palavra. O que mudou é a forma. O hardware. Não tem mais aquela combinação gravadora-sucesso-disco-tv-jabá, essas coisas.  O mercado é segmentado e as vias de acesso, idem. Para lucrar, você tem de administrar-se. O deus-indústria não existe mais. Se você não coloca seu disco para download, você impede o acesso ao seu trabalho. As pessoas optam e você tem de fornecer opções. O cara baixa teu disco. Gosta? Aí vai ao show. Gosta? Aí compra o disco. Gosta? Aí fala de você. O download não é dar de graça, é um começo de relação.

JB: O que os fãs podem esperar do show no Rio de Janeiro? E que mensagem deixaria para os cariocas, ávidos por mais um show de Tulipa?

Tulipa: Para o Rio prometemos o máximo. Alguma mensagem? Pelo nosso amor em movimento, pode ser e é!