Uma década de Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG)

O harmônico encontro da arte contemporânea com a pesquisa botânica

É um museu? É um Jardim Botânico? Não. O empresário siderúrgico mineiro Bernardo Paz, 63, descobriu a roda do entretenimento cultural e ambiental. Atende pelo nome de Instituto de Arte Inhotim e fica em Brumadinho, cidade a 50 minutos da capital mineira, Belo Horizonte. Tim era o nome de um fazendeiro gringo da região e inho, como se chamavam os senhores em tempos remotos. Redenção da baixa autoestima brasileira, esse inusitado casamento entre o melhor da arte contemporânea e da pesquisa botânica completa sua primeira década.

Na realidade, o Instituto só abriu à visitação pública em outubro de 2006. Desde 2002, porém, o espaço já estava estruturado para receber amigos privilegiados. Conhecer Inhotim, por sinal, proporciona esplêndidas sensações. Seja pelas obras esparsas distribuídas, entre esculturas e instalações, ao longo dos 100 hectares de área de visitação, às galerias que surpreendem a cada sala onde se entra. Seja ainda por abrigar a maior coleção de palmeiras do mundo e uma infinidade de plantas exóticas divinamente distribuídas pelo espaço.

Até hoje foram cerca de 250 mil visitantes, em torno de 70% deles da classe C, que não hesitam em desembolsar R$ 28 para conhecer o lugar. A estimativa é que cheguem a 400 mil este ano. Em breve serão oferecidas novidades, como o novo pavilhão Tunga, além de espaços para o cubano Carlos Garaicoa e para a espanhola Cristina Iglesias.

Na árida viagem de Belo Horizonte a Brumadinho, passando por cidades insossas e industriais como Contagem e Betim, só a entrada de Inhotim já é um soco no estômago. No bom sentido. Palmeiras enfileiradas, de várias alturas e de espécies diversas, o piso harmonicamente pavimentado e solícitos funcionários prontos a responder a qualquer tipo de dúvida. 

A impecável sinalização não deixa margem a dúvidas. O estacionamento é mega, gratuito, com espaço de sobra para não deixar ninguém de fora. E cada vez fica menos raro esbarrar em um estrangeiro que viajou direto de seu país a Inhotim.

Disneylandia das artes

Um enorme lago esverdeado – o maior entre os quatro existentes, todos artificiais – parece abrir os braços a quem chega. Como, um lago esverdeado em pleno triângulo mineiro de águas barrentas? A explicação é um pigmento, que não causa danos ambientais. Por toda a parte, canteiros bordados com diferentes cores e texturas, no melhor estilo Roberto Burle Marx (1909-1994), o papa do paisagismo tupiniquim, amigo e conselheiro de Bernardo Paz.

São mais de mil funcionários empregados na região, que parece ser pura carência, envolvidos da manutenção dos jardins ao acompanhamento da tecnologia que envolve as exposições das obras de arte, dignas dos melhores museus do Primeiro Mundo. Não seria exagerado dizer que não se conhece nada semelhante no planeta, com patrocínio das leis de incentivo à Cultura e da Vale.

A não ser para aqueles que chegam acompanhados de orientadores especializados, Inhotim é um oceano de opções a se explorar. Não há ordem de prioridade previamente estabelecida. Cada visitante recebe um pequeno folheto, que mapeia tudo o que existe ali dentro. São 24 obras de arte plantadas pelos jardins e 17 galerias. As que têm nomes genéricos, como Praça, Fonte ou Lago, recebem coleções itinerantes. As demais são batizadas com o nome do artista e exibem sempre o mesmo conteúdo. E que conteúdo.

Informalmente conhecido como o Palácio da Primeira Dama, só a Galeria Adriana Varejão já é uma obra de arte por si, com seu projeto geométrico impecavelmente branco, cercado de água azul turquesa. São três andares de obras totalmente distintas entre si. A carioca Adriana foi a segunda mulher de Bernardo Paz, o idealizador daquela verdadeira Disneylândia das artes.

Nascido em uma rica família de mineradores, Paz iniciou Inhotim em torno de um núcleo que sediava uma fazenda. Logo na largada, impressiona a suntuosa entrada pela alameda à beira do lago, que conduzia à antiga sede, pontuada por frondosas árvores centenárias. O empresário começou a comprar propriedades vizinhas e viu sua fazenda crescer para mais de 200 hectares. Colecionador de arte moderna, mudou seu foco ao ficar amigo de artistas contemporâneos, entre eles, Tunga e Cildo Meireles.

Vermelhos em destaque

O primeiro a montar sua galeria foi Antonio José de Barros de Carvalho e Melo Mourão, o Tunga, com a monumental True Rouge, que lembra um templo grego. Com apenas uma sala de frente para o lago, na obra pendem do teto redes, esponjas, vidros que contêm um líquido vermelho, viscoso. Impactante viagem que mescla ciência e fantasia, marcas registradas do artista pernambucano.

Cildo Meireles também abusa do vermelho em sua galeria. Uma das salas, enorme, expõe todos os móveis, quadros, livros, utensílios e tapetes cor do sangue. E assim são as galerias, uma sucessão de ideias inusitadas, surpreendentes, estímulos a todos os sentidos.

Quase no topo de um dos morros da área de visitação, uma trilha cercada de arbustos conduz a um OVNI. Única definição possível para aquela imensa instalação multifacetada em espelhos, que refletem o verde ao redor e qualquer um que esteja de passagem. Lá dentro, o americano Matthew Barney montou um imenso trator florestal, cujas rodas descomunais estão cobertas de barro em De lama lâmina.    

Fincada no topo do mesmo morro, outro americano, Doug Aitken, revela aos mortais um som nunca dantes ouvido em Sound Pavilon. No centro da enorme galeria circular e envidraçada que parece uma nave espacial, Aiken perfurou 200 metros de solo e lá no fundo instalou microfones de alta sensibilidade, que reproduzem o som da terra. Alterna momentos de ruídos mais fortes a quase silêncio, associado à paz da paisagem.

Erotismo na veia

O que parece ser um enorme casco de navio enferrujado é a Galeria Miguel Rio Branco, ancorado no alto de uma pequena colina, outro amigo de Bernardo Paz que participa do projeto desde o início. Isso significa anos 90. Paz começou a colecionar arte moderna nos anos 80 e, na medida em que conheceu os artistas contemporâneos, aos poucos redirecionou suas aquisições. Um dos maiores fotógrafos brasileiros da atualidade, o Pelourinho de Rio Branco é uma sucessão de imagens impactantes. Erotismo na veia.

Em meio a essa metralhadora giratória de informações culturais, poltronas e mesas de madeira rústica, além de enormes troncos recortados que se transformam em generosos sofás convidam à reflexão. É muita coisa para ver – e sentir – de uma só tacada. Qualquer um terá a oportunidade de absorver o que está exposto, porque ao lado de cada obra ou antes de entrar em cada sala das galerias, há uma explicação palatável. E entre tantas palmeiras, coqueiros, antúrios e filodendros, obras de artistas nacionais e internacionais compõem a paisagem, como Waltércio Caldas, Edgar de Souza, Amilcar de Castro, Paul McCarthy, Chris Burden e Zhang Huan. 

Deslocamento não é problema. Carrinhos elétricos percorrem as trilhas e atendem a quem não tem preparo físico. O mesmo ocorre em relação aos bebedouros estrategicamente localizados e limpíssimos toaletes, por toda a parte. E para não dizer que aquilo tudo beira a perfeição, o sistema de saneamento é de fossa séptica.

Atenção às crianças

Embora os visitantes sejam uma maioria de adultos, durante a semana Inhotim é invadido por multidões de alunos da rede municipal de ensino. Chegam a ser 800 de cada vez e os monitores os dividem em grupos de 25. É uma das ações de cultura e cidadania desenvolvida pelo Instituto Cultural Inhotim (ICI) - uma associação dotada de personalidade jurídica de direito privado, sem fins econômicos ou lucrativos, de caráter cultural, com autonomia administrativa e financeira. 

O ICI é uma associação apta à captação de recursos públicos ou privados por meio de projetos de lei de incentivo à cultura, que contribuem para manter o complexo de pé.

Outro setor bem resolvido é a gastronomia, com dois charmosos restaurantes que convidam à pausa. No Tamboril, onde varandas se debruçam sobre a paisagem, há opções de pratos à la carte e bufê de comida internacional. Não se come por menos de R$ 50. Criado mais recentemente, o Oiticica proporciona igualmente uma bela vista, para o lago, e sai pela metade do preço, com menu a quilo. O restaurante fica perto de Invenção da cor, Penetrável Magic Square, uma das obras que consagrou Hélio Oiticica (1937-1980), de 1977. 

Por sua arte interativa e outras inovações, Oiticica foi considerado um dos mais revolucionários artistas de seu tempo, de fama internacional. Ele volta a ser lembrado em Inhotim na galeria Cosmococas, onde a participação interativa é palavra de ordem.   

Flor Cadáver

A experiência sensorial prossegue pelo Viveiro Educador e pelo Núcleo de Pesquisa Inhotim, em área de 25 mil m². Ali é feita a manutenção do acervo botânico, criado em intercâmbio com algumas das principais instituições mundiais. Botânicos treinados recebem o visitante em tours pelos canteiros em forma de mandalas de plantas medicinais. 

Hoje, o acervo acomodado em estufas fechadas à visitação soma mais de 4.800 espécies, distribuídas em 167 famílias botânicas. Há, porém, uma exceção à visita limitada das estufas: quando floresce a Amorphophallus titanum. Mais conhecida como Flor Cadáver, pelo seu forte odor putrefato, é a maior floração do mundo, que pode atingir 3 m de altura e 7 m de diâmetro. 

E se dentro do complexo tudo funciona com harmonia, o mesmo não se pode dizer do lado de fora. A equipe do Jornal do Brasil, que pousou em Belo Horizonte no distante aeroporto de Confins, alugou um carro para chegar a Inhotim. Na volta, calculou o dobro de margem de tempo da ida. No entanto foi ‘atropelada’ por um engarrafamento monstro, causado pelo recapeamento da MG 381.

Resultado: perdeu o avião e não havia hotel para se hospedar no Aeroporto. Embora o encantamento com Inhotim predominasse, ficou a conclusão: é vital o investimento pelo governo de Minas Gerais para melhorar sua infra-estrutura e corresponder ao interesse cada vez maior por Inhotim.