Crítica: 'O vingador do futuro'

“A vida é sonho”, anunciava Calderón de la Barca, no século de ouro espanhol; no final do século XIX, Freud transpõe o sonho para outro patamar, com a publicação de “A interpretação dos sonhos”; em 1966, Philip K. Dick publica o conto “Lembramos para você a preço de atacado” e transforma um sonho no início de uma trajetória alucinante em busca do reconhecimento da identidade individual num ambiente onde as realidades virtuais e imaginárias são tão palpáveis quanto os objetos que dispomos à mão.

O conto de Dick chega às telas, em 1990, sob o título O Vingador do Futuro (Total Recall, no original), trazendo Arnold Schwarzenegger no papel título, dirigido pelo holandês Paul Verhoeven. Agora, o longa está sob a batuta de Len Wiseman (Anjos da noite) que confiou o protagonista ao ator Collin Farrel (A hora do espanto).

Na trama, o operário Douglas Quaid recebe uma proposta para sair de sua rotina maçante: nas férias, terá memórias implantadas em seu cérebro, através da Recall, e imaginará que é um agente secreto. A operação resulta em um pequeno desastre e tem que ser interrompida; a partir daí, mistura-se na cabeça do protagonista as esteiras da realidade e da imaginação ou, melhor dizendo, a realidade é acrescida de tamanha dose de fatos, até então, impossíveis ao trabalhador braçal, que se confunde com a fantasia e Quaid se vê perseguido pela polícia e lutando ao lado de rebeldes contra um estado opressor.

Esqueçamos Marte! A nova versão traz uma disputa entre as duas últimas regiões habitáveis da Terra: a Federação Unida da Bretanha e a Colônia (antiga Austrália). Essa nova ambientação consiste no grande trunfo do filme, levando em consideração os avanços das novas tecnologias e da expansão dos meios de comunicação, transporte e faturamento, as próprias descobertas da ciência acerca da vida em outros planetas e, sobretudo, as guerras detonadas pela ganância de domínio de territórios alheios. Inserir o filme neste ambiente, ao contrário do que se poderia pensar, não diminui suas possibilidades futuristas, muito ao contrário, cria um futuro possível e soma nova utilidade ao longa.

Bryan Cranston (Pequena Miss Sunshine) é Cohaagen, chanceler da Federação Unida da Bretanha que, secretamente, prepara a invasão do estado-nação do outro lado do planeta sob o pretexto de defender seu povo. Cranston é responsável por uma das melhores criações do filme ao lado do também veterano Bill Nighy (Fúria de Titãs 2) e de Bokeem Woodbine (Ray). Kate Beckinsale (Anjos da noite) disputa o protagonista com Jesica Biel (O ilusionista), ambas com interpretações frias.

Apesar da filosofia e da possibilidade da discussão política, O Vingador do Futuro é um filme de ação. Aliás, de uma ação frenética. Tiros, explosões, lutas coletivas e longas sequências de saltos em espaços urbanos superpopulosos (que propiciam jogos interessantíssimos nessas perseguições) dão o tom do contínuo deste filme.