"Cartas" do presidente da Cedae dão dicas a jovens e futuros engenheiros

Livro será lançado dia 3 de setembro, no Rio de Janeiro

"O engenheiro tem que ser um sonhador e, ao mesmo tempo, a vontade de ser um transformador". É dessa forma que o engenheiro Wagner Victer, 48 anos, 28 deles na carreira e há 5 como presidente da Cedae, define a mensagem central do livro "Cartas a um jovem engenheiro" (Editora Campus/ Elsevier, 204 páginas). a ser lançado no próximo dia 3 de setembro. 

A obra faz parte de uma coleção que já conta com contribuições de nomes como Fernando Henrique Cardoso ("Cartas a um jovem político") e Bernardinho ("Cartas a um jovem atleta"), entre outros.

Funcionário de carreira da Petrobras e ex-secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, o engenheiro afirma que sintetizou na obra os principais questionamentos que recebe durante suas aulas e palestras:

"É um texto rápido e engraçado, a leitura de cada carta não leva mais do que cinco minutos. Destina-se a todos que querem cursar engenharia, aos estudantes da área e aos profissionais recém-formados", explica.

Além das 28 cartas, escritas por Victer em 45 dias, o livro conta com uma  abertura do industrial Jorge Gerdal - "meu primeiro chefe", relembra - e prefácio do bilionário Eike Batista. Animado com a publicação, ele adianta os temas que aborda ao longo do livro e lembra de histórias marcantes de sua carreira:

Jornal do Brasil: Que tipo de pergunta você responde no livro? São dúvidas comuns dos jovens?

Wagner Victer: Sim, são questionamentos que eu sempre ouço nas minhas aulas. Por exemplo: tem que morar fora e estudar no exterior? É possível até ter a opção de ir para o exterior, mas hoje se tem cursos com padrão igual ou superior no Brasil. Se pode ir para ter contato com a cultura e aprender a língua, mas não é mais uma exigência. Passamos dessa fase, nossa engenharia é de referência.

JB: E que características um engenheiro precisa ter?

WV: O jovem tem que ter determinadas características que podem ser desenvolvidas ou já fazer parte dele. Não adianta alguém que não queira se moldar ou que não tenha a características querer fazer engenharia. Desde cedo se vê se o jovem será engenheiro ou não. Ter o olhar voltado para o social é uma característica do engenheiro. Engenheiro que é insensível socialmente está fadado a fazer besteira.

JB: É comum ver engenheiros que não se interessam por entender a política e a sociedade. Qual é a importância disso para o sucesso de um profissional?

WV: Pelo engenheiro ser o elemento transformador, ele não precisa necessariamente ser ligado a política partidária, mas não pode ser alheio à política. Como pensar em, como  engenheiro, atuar na transformação das Olimpíadas se não conhece o processo político? Por ter um conhecimento técnico, ele tem que ter uma noção do que aquilo representa. É um formador de opinião exatamente por ter esse conhecimento.

JB: Essa formação humanística deixa a desejar nos cursos de engenharia?

WV: A formação humanística nas faculdades de engenharia deixou e continua deixando muito a desejar. O engenheiro completo, hoje em dia, é o que desenvolve as habilidades de relacionamento interpessoal. Quem não tem visão humanística de saber como se insere na sociedade será um péssimo engenheiro. As variáveis hoje são diferentes: tem que se relacionar com os sindicatos, com a mídia, com o meio ambiente, com os órgãos de controle...Não adianta ser um belo engenheiro e no primeiro conflito fazer uma cagada com a imprensa ou com o meio ambiente. É demais achar que um jovem de 20 anos que se forma em engenheiro terá formação humanística meramente acadêmica. Ele terá que construir.

JB: Durante a sua geração essa mentalidade se alterou. Como foi vivenciar esse processo?

WV: Tem uma história que conto no livro e mostra isso. Era 1989.  Até 1986 não existia esse negócio de licença ambiental. Uma vez lancei um duto da Petrobras no litoral de Macaé. O presidente da Feema, na época, me chamou para saber porque eu não havia pedido a licença ambiental. Arrumamos uma briga. No final, ele pediu para modificar a posição do duto. Nós jogamos alguns metros para o lado para enganar ele. Ele ficou mais irritado ainda e cancelou nossa obra. Esse ex-presidente da Feema é o vice-prefeito Carlos Alberto Muniz, eu inclusive o agradeço no livro. Dali para frente, não só eu como vários engenheiros da Petrobras começamos a respeitar o meio ambiente.

JB: O senhor usa exemplos da sua trajetória profissional para aconselhar os leitores. Tem algum erro comum que costuma custar caro para os profissionais?

WV: As pessoas pensam que a pós-graduação é um documento para entrar no mercado. Ela tem um momento a ser feito, tem que saber em que fazer. Para saber o que cursar é preciso estar no mercado, caso contrário haverá um corte diferente do que exige o mercado. É algo muito comum de vermos por aí.

JB: Ainda sobre a questão da política. O senhor já enfrentou algum problema sério justamente po ainda não ter esse traquejo?

WV: Essa é uma história que eu não conto no livro. A Petrobras me passou um desafio para fazer um poliduto na Bahia. O nome era Temadre-Jequié-Ilhéus. Quem me assessorava politicamente lá era um ex-deputado chamado Mário Lima. Estava dando muito problema fazer a base em Ilhéus, porque o pessoal dizia que o duto ia tirar o movimento e matar o porto do Jorge Amado, onde se passava Gabriela e tal. Eu fui procurado pelo prefeito de Itabuna, que é do lado de Ilhéus. Sem consultar nada, mudei o projeto para Itabuna. 

Foi uma cagada do ponto de vista político. Pior que tirar o movimento do porto era levar para Itabuna. Porque os moradores de Ilhéus odeiam Itabuna e os de Itabuna odeiam Ilhéus. Era uma briga histórica, coisa de pegar em armas. Em Ilhéus não quiseram vender o terreno que precisávamos, em Itabuna doaram a área para a Petrobras. Foi um problema, fiquei dois anos consertando, dando entrevistas na TV e não consegui voltara  obra para  Ilhéus. Eu teria feito esse porto muito mais fácil em Ilhéus se conhecesse a política local. Isso gera atrasos, aumenta o gasto de recursos públicos e causa outros problemas.