Milton Nascimento: 'não gosto de fazer música no silêncio'

Com frases pausadas que se unem por um passeio pelo passado, ele exibe a calma que adquiriu em seus quase 70 anos de vida. Nesta quarta-feira (1), uma conversa descontraída entre Milton Nascimento e um pequeno grupo marcou a sua passagem pela capital paulista, onde realizará uma apresentação nesta sexta-feira (3), no HSBC Brasil. "Gosto muito de misturar as coisas. Sou diferente dos meus colegas, porque não gosto de fazer música no silêncio", divagou ele, ao comentar sobre as diversas parcerias e apadrinhamentos musicais de sua carreira. Uma delas é com Sandy, que participará de seu show em São Paulo.

Em turnê que comemora seus 50 anos de estrada, o músico decidiu que chamaria pessoas queridas para dividir o palco. "Ela é uma pessoa que adoro, que gosto muito", observou sobre a filha do sertanejo Xororó, ao contar que a acompanha "desde que era criancinha". Como parceiro fixo nos shows, está Lô Borges, amigo de longa data desde os tempos do Clube da Esquina. "É uma amizade muito forte", descreve ele sobre o companheiro de décadas.

Carioca de nascimento e mineiro de coração, Milton deixou Três Pontas, em Minas Gerais, para estudar em Belo Horizonte. Foi lá que conheceu os irmãos Borges - Marilton, Lô e Márcio -, que marcariam seus passos na música. Alguns anos depois, quando já morava no Rio de Janeiro, o cantor voltou à casa dos velhos amigos para uma visita. Ao chegar, convidou Lô para "tomar uma batida de limão". O mineiro, que não bebia, pela primeira vez resolveu pedir a mesma bebida, e começou a desabafar que estava insatisfeito com a amizade - segundo ele, a "turma" nunca o chamava para sair. Milton, então, rebateu: "só descobri que você não era mais criança quando você pediu a batida de limão".

Depois de chegarem a um consenso, os dois começaram a falar sobre música, quando Lô contou que andava compondo alguns arranjos. Empolgados, foram pra casa para que ele pudesse mostrar suas ideias. "Uma coisa mais bonita que a outra", relembrou Milton, que, sem hesitar, também pegou o violão para tocarem em dueto. "Quando a coisa me pega lá dentro, fecho o olho e não sei o que está passando na vida", contou o músico, que, após minutos em transe, resolveu abrir os olhos e percebeu que Márcio também estava ali, compondo uma letra em cima dos arranjos, enquanto a mãe dos irmãos estava na porta, em lágrimas. Assim nasceu o Clube da Esquina, que lançaria seu primeiro disco em 1972.

No mesmo ano, outros artistas fizeram registros que marcariam a música brasileira. Novos Baianos comAcabou Chorare, Caetano Veloso com Transa, Gilberto Gil com Expresso 2222, entre outros não menos importantes. "Você comprava os discos ou ouvia na rádio só coisas completamente novas e lindas", observou Milton sobre a época. Ele, porém, se diverte ao admitir que nunca gostou de títulos como "grupo baiano, grupo aquilo", pois seu "grupo não era mineiro, não". Ele ainda contou que, pouco mais tarde, houve uma aproximação entre os músicos, que assumiram "a mesma linguagem".

Milton, que também sentiu a influência das mulheres em sua música, confessa que Elis Regina ocupava o primeiro lugar. "Antes de a Elis morrer, todas as músicas que eu fazia era pensando nela", emocionou-se ao relembrar que a amiga costumava acompanhar suas novas composições. Ele, no entanto, não deixa de expor seu carinho por outros nomes, como Nana Caymmi: "cada uma tinha uma coisa que me dizia o que eu devia cantar".

Da brasilidade ao jazz 

Artistas e ritmos estrangeiros tornaram-se outra marca na carreira de Milton. O jazz foi um deles. Ele, que não conhecia o gênero nos tempos de Três Pontas - mas que, ainda assim, já tinha um contato prático com o estilo, ao tocar contrabaixo em bandas de baile -, descobriu Miles Davis na casa do baterista e amigo Pascoal Meirelles, em Belo Horizonte. Ao ouvir um disco do norte-americano, ele pensou: "isso não é um trompete, é a minha voz".

Mas a história entre Milton e o jazzista não parou por aí. Wayne Shorter, que já havia tocado com Davis, estava no Brasil para se apresentar com sua banda da época, o Weather Report. O saxofonista, que já tinha ouvido falar em Milton, quis conhecê-lo. "Fomos fazer um show e alguém disse que o Shorter estava lá, então eu disse que não iria cantar", contou, ao admitir que estava com muita vergonha, mas que acabou mudando de ideia. Apaixonado pela música do "mineiro", na véspera de deixar o País, Shorter perguntou se ele gravaria um disco com ele. Foi assim que, em 1974, tomou forma o LP Native Dancer.

Fã de Charles Mingus e John Coltrane, Milton admite que Miles Davis, no entanto, é seu grande ídolo do jazz. "Tinha uma coisa que juntava a minha voz com os solos do Davis", observa ele sobre o trompetista, que soube de sua existência por meio de Shorter. Segundo Milton, Davis tinha ciúmes por não tê-lo descoberto e pelo fato de ele ter gravado com o saxofonista primeiro. Apesar disso, tempos depois, ele o convidaria para abrir seus shows. Sem muito contato durante a turnê, Davis, porém, elogiava para os outros a música "de um crioulinho do Brasil". "Nunca me importei. A gente tocava e era muito bom. Eu via meu ídolo sem ter que pagar", diverte-se.