Adaptar clássicos da literatura para a TV não é fácil, dizem autores 

Transpor clássicos da literatura para a TV requer criatividade e desprendimento. Ao ler um livro, a mente do leitor cria uma imagem vaga, apenas insinuada. Já em uma versão televisiva, a adaptação para o novo meio substitui as palavras por imagens, em um processo que depende do autor do roteiro, da visão do diretor e do elenco e equipe técnica. Mais ainda, costuma exigir altos investimentos e apelo popular. "Não dá para colocar tudo na TV, é preciso aparar os excessos. Nessa troca de linguagem, preciso respeitar o livro, o autor original e ainda dar conta de um produto de entretenimento para as massas", explica Walcyr Carrasco, responsável pelo remake de Gabriela, trama baseada no livro Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado.

A obra do autor baiano - que este ano completaria 100 anos - é a mais revisitada pela teledramaturgia brasileira. Além da atual novela das 23h, cujo a história já tinha sido adaptada para a TV em 1975, outros livros de Jorge também tinham sido abordados em minisséries como Tereza Batista, de 1992, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1998 - último trabalho de Dias Gomes na TV. E em folhetins como Tocaia Grande, de 1995, exibido pela extinta Manchete, Tieta, de 1989, e Porto dos Milagres ¿ inspirada nos livros Tenda dos Milagres e Mar Morto¿, de 2001, os dois últimos sob a batuta de Aguinaldo Silva. "Trabalhar com livros conhecidos do público torna o trabalho mais difícil. Confesso que não gostava muito de ler Jorge Amado antes de fazer Tieta. Ao mergulhar naquele universo típico dos livros dele, me apaixonei. Criei e recriei histórias com total aval do autor e da emissora", assume Aguinaldo, que na época de exibição da novela, usou a abertura política do fim da ditadura militar a seu favor, dando destaque ao teor político e sexual do texto original.

Além disso, apoiando-se na licença poética dos folhetins, o autor e seus colaboradores aumentaram a participação de personagens menores dos livros adaptados. E ainda criaram bordões e novas situações. "Alguns personagens secundários podem render ótimas histórias. Ao contrário do que é feito atualmente, as novelas daquela época ficavam no ar por muito mais tempo. Para dar conta disso, é preciso aproveitar as possibilidades que não estão nos protagonistas", analisa Ricardo Linhares, que trabalhou ao lado de Aguinaldo em Tieta e Porto dos Milagres. Desde os primórdios, a TV brasileira utiliza a literatura em suas produções de maior prestígio. Durante os anos 60, as pioneiras e já extintas Tupi e Excelsior investiram em tramas como As Minas de Prata, de Ivani Ribeiro, baseada no romance homônimo de José de Alencar, exibida pela Excelsior em 1966. E O Tempo e o Vento, adaptação do livro homônimo de Érico Veríssimo assinada por Teixeira Filho, foi produzida pela Tupi em 1967 e transformada em minissérie pela Globo, em 1985.

Nos anos 70, a Globo também quis uma fatia deste filão. Sob a coordenação do diretor Herval Rossano, grande parte das novelas das seis exibidas até meados dos anos 80 reforçaram o diálogo entre a literatura e a televisão. Na lista, Senhora, de José de Alencar, Helena, de Machado de Assis, e o grande sucesso Escrava Isaura, de José Bernardo Guimarães. Todas as adaptações feitas pelo então novato Gilberto Braga. "O público recebia aquelas novelas como uma aula de literatura. A riqueza daquelas histórias eram de grande prestígio para a Globo e feitas com muito carinho pelo Rossano. Foi a partir desses trabalhos que fiquei conhecido e fui para o horário das oito", admite Gilberto.

Falecido em 2007, Herval Rossano era um grande entusiasta das produções baseadas em clássicos da literatura nacional. Tanto que, mesmo nos períodos em que ficou fora da Globo, levou esses planos para outras emissoras, como a Manchete, onde dirigiu Dona Beija, de 1986, inspirada nos livros Dona Beija, a Feiticeira de Araxá, de Thomas Leonardos, e A Vida em Flor de Dona Beija, de Agripa Vasconcelos. Por fim, a última adaptação literária comandada por Rossano foi um remake de seu maior sucesso: Escrava Isaura. Produzido pela Record em 2004 e assinado por Tiago Santiago. "Era muita responsabilidade refazer o texto de uma trama tão importante. Esqueci um pouco as lembranças que tinha da novela do Gilberto e fiz da minha versão um retrato mais fiel ao livro", destaca Tiago.