Crítica de teatro: 'História de família'

Uma das companhias de maior prestígio da cena carioca contemporânea, o grupo Amok Teatro, vem buscando, desde 2008, com sua Trilogia da Guerra, trazer aos palcos de nossa cidade espetáculos que propõem reflexões sobre as sociedades que vivenciam grandes conflitos bélicos.  Em O Dragão (2008), por exemplo, talvez a peça mais marcante da referida trilogia, o tema era o embate entre palestinos e israelenses.  Em Kabul (2010), a matéria principal era o Afeganistão e sua estrutura político- religiosa.  Agora, em 2012, o grupo se volta sobre o desmantelamento da Iuguslávia nos anos de 1990 e sobre a barbárie que se instalou na região dos Balcãs nesse período.  Ao contrário de investigar as tensões a partir de um enfoque que privilegie o olhar direto sobre a luta armada e a atuação dos políticos que a engendraram, o grupo prefere voltar-se para o universo mais íntimo da família, analisando a guerra a partir de suas consequências mais nefastas a esse núcleo social básico.  Assim, é a perda de valores essenciais ao convívio humano o objeto de interesse primário de Histórias de Família, a última peça da Trilogia, atualmente em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil.

A partir do texto premiado de uma jovem dramaturga sérvia ainda pouco conhecida no Brasil, Biljana Srbljanovic, opositora ao regime de Milosevic, a encenação propõe um jogo entre quatro personagens que, diante de uma plateia de bonecas, brincam de retratar a vida em família num contexto de convulsão política e social imposta pela guerra.  Com isso, desvenda-se certo modelo abusivo, patriarcal, que concebe a existência a partir da misoginia, do ódio e do desprezo ao Outro.  Percebe-se claramente aí o olhar de autora, que procura abordar, a partir do enfoque da mulher, temas como o trabalho feminino dentro e fora do lar, o abuso da força masculina, o excesso de brutalidade no tratamento aos filhos e esposas.  Enfim, preocupações que, talvez, não tivessem recebido abordagem tão densa e penetrante se não resultassem de vivências próximas às da própria artista.

Evitando estereótipos mais comuns, que tendem a abordar o papel da mulher nas sociedades ortodoxas simplesmente a partir de sua vitimação, Srbljanovic trabalha também com a ambiguidade que matiza melhor o vai e vem entre aquele que pune e o que é punido.

Ainda que as famílias recriadas apareçam em contextos diversos dentro do mesmo conflito, que uma fique na miséria material e que a outra prospere a partir dessa mesma pobreza, a falta de solidariedade dá o tom de toda aquela existência.  A desagregação que o ambiente da guerra provoca faz desaparecer qualquer possibilidade de afeto.  É tocante a cena em que a mulher lava as bandeiras sujas de sangue, sem conseguir tirar-lhes o vermelho marcante, já espalhado no avental que usa.  Ao final, quase todos morrem, sobrando apenas as lembranças do horror para os que ficam.

A dupla Ana Texeira e Stephane Brodt, responsável pela adaptação e direção, realiza um trabalho primoroso, que extrai o melhor do texto e do elenco, do qual Brodt também faz parte.  A força do desempenho dos intérpretes é tamanha que o público sente-se literalmente transportado para aquele estranho e, ao mesmo tempo, tão conhecido universo.  Bruce Araújo, Christiane Góis, Rosana Barros e Stephane Brodt oferecem ao público uma das imagens mais perfeitamente desenhadas do autoritarismo e da irracionalidade de um determinado tipo poder. 

Cenário e figurino contribuem para o bom resultado do todo, explorando os contrastes e criando uma cena em que a plasticidade se coloca organicamente a serviço dos intérpretes.

Histórias de Família é um espetáculo que merece ser visto.  Apesar de não propor uma análise aprofundada dos conflitos em termos marcroestruturais, acerta ao abdicar dessa postura em prol do esmiuçamento das relações de poder dentro do espaço familiar, pois é a partir desse núcleo que se criam e se projetam as grandes estruturas.

Mais um acerto na trajetória de uma de nossas melhores companhias.

Cotação: (**) Bom