Crítica: 'Aqui é o meu lugar'

Para escrever sobre Aqui é o meu lugar, novo longa do diretor italiano Polo Sorrentino (Il divo), é preciso dividir a crítica em duas partes, bem como é feito com a história. O longa conta a vida do roqueiro Cheyenne (Sean Penn - impecável), um rock star decadente e desmotivado. Cinquentão esquisito, à la Ozzy Osbourne, ele está acostumado a ser alvo de piadas por sua aparência. Chey preserva o guarda-roupa, o cabelo e a maquiagem de um tempo que já passou em sua vida. Tem uma mulher que o ama (Frances Mc Dorman) e uma amiga fiel (Eve Hewson). Amargurado e sem vontade de voltar a tocar ou cantar, ele se conforma em dizer "My life is just fine". A vida dele não está lá essas coisas e as memórias de sua época de rock star e das consequências desastrosas que trouxe para si e, principalmente, para seus grandes amigos nunca parecem abandoná-lo. Até aí estamos diante da primeira parte do longa.

Mais esquisito que Chey é a reviravolta que sofre a trama. O ex-rock star é obrigado a deixar a vida calma em Dublin, na Irlanda, para visitar o pai enfermo em Nova York. O personagem chega tarde e encontra o pai, que não via há 30 anos, morto. Apesar de não conhecer bem o progenitor - um judeu polonês vítima do campo de Auschwitz, - Chey descobre um objetivo que ele possuía na vida: matar o nazista que o humilhou. Essa descoberta deixa Chey ainda mais deprimido e ele decide terminar o que o pai começou, como uma forma de compensá-lo por aqueles anos de "abandono". O personagem interpretado por Penn torna-se tão obsessivo quanto o pai e vai para todos os cantos da América em busca de Aloise Lange e da "implacável beleza da vingança".

Com ajuda do excelente Judd Hirsch, que interpreta um especialista em encontrar e exterminar nazistas, Chey está disposto a tudo para honrar a memória do pai. Nessa busca, direção de arte e trilha sonora merecem destaque pela beleza e por se encaixarem tão bem no percurso, com direito a músicas da The pieces of shit, bem opostas ao nome da "banda". Aqui é o meu lugar, título referente à música do disco Speaking tongues, do Talking Heads, explica, sem dúvida, o porquê do sucesso que teve quando passou em setembro no Festival do Rio. 

No longa, à medida que faz a viagem, Chey vai descobrir mais sobre si mesmo que sobre seu falecido pai. "Alguma coisa está errada aqui, não sei ao certo o que é, mas algo". Essa dúvida perseguirá o personagem por muito tempo. Talvez, para respondê-la seja preciso acender um cigarro e deixar para trás a criança, o medo e as marcas de um rock star que não volta mais.

Cotação: *** (Ótimo)