Cine PE: "'Boca' é aula sobre a prostituição em SP", diz diretor 

Após um erro na montagem, que obrigou o cancelamento da sessão de domingo (29), Boca, parte da mostra competitiva de longas-metragens, foi reexibido em perfeitas condições na noite de terça-feira (1), no Cine PE - Festival do Audiovisual, em Olinda (PE). Narrando a história de Hiroito Joanides, famoso bandido da "Boca do Lixo", o filme é uma "aula da prostituição em São Paulo", segundo o próprio diretor, Flávio Frederico. "É um retrato da prostituição naquela época e em como as coisas foram mudando, desde o fechamento da Zona Aberta do Bom Retiro até a decadência da Boca", disse ele em entrevista coletiva na manhã desta quarta (2). A área da cidade ficou conhecida pelo alto índice de prostituição nos anos 1950 e 1960.

Baseado no livro de memórias de Hiroito, Boca do Lixo, o longa começa apresentando o primeiro contato do autor com a prostituição, sua transformação em "o rei da Boca" e sua posterior decadência. O papel de protagonista é interpretado por Daniel de Oliveira, que contracena com Hermila Guedes - uma prostituta que vira sua mulher -, Paulo Cesar Peréio - como um delegado corrupto - e Leandra Leal - na pele de uma ex-miss que se transforma no braço-direito do personagem principal.

Filmado em apenas quatro semanas e dois dias, o longa chama a atenção pela direção de arte, principalmente pelo figurino e maquiagem cuidadosos. "Queria que o espectador realmente se sentisse dentro do universo da Boca do Lixo", explicou Frederico sobre o fato de ter feito quase todas as cenas com a câmera na mão.

Há, no entanto, algumas falhas no filme. Por exemplo: ainda no início, Hiroito se torna suspeito de assassinar o próprio pai. Um jornalista, então, o procura para que ele fale sobre o assunto, dê a sua versão, mas, naquele momento, ele não fala, pega um cartão do sujeito e o que se imagina é que algo vá se desenrolar a partir dali. Contudo, o repórter nunca mais aparece.

Frederico contou que, além de abordar a história da prostituição em São Paulo, um dos seus objetivos com o longa era provocar uma reflexão sobre a cidade. "Existe uma coisa importante em Boca que é o que aconteceu com a cidade, principalmente com aquela região, que acabou virando a Cracolândia. Fiz questão de deixar imagens atuais, o telefone público, a cidade hoje", explicou sobre uma cena em que o reflexo da capital atual aparece em um espelho.

Apesar de ser um filme de época, Boca foi feito com um orçamento baixo - quase todos os takes internos foram gravados em apenas dois apartamentos do centro de São Paulo - e enfrentou dificuldades na distribuição. Filmado em 2010, ele só deve entrar em cartaz no circuito comercial no segundo semestre deste ano. "Só fechamos agora com uma distribuidora. O 'modus operandi' é muito complicado. O distribuidor brasileiro está atrás da receita de bolo e o meu filme não se encaixa nessa receita", desabafou.

O Cine PE termina na noite desta quarta-feira (2) com a premiação dos filmes vencedores.