Millôr Fernades é cremado no Rio de Janeiro

O escritor e cartunista Millôr Fernandes, que morreu na noite da última terça-feira, foi velado, na manhã desta quinta-feira, na capela 2 do Memorial do Carmo, no Cemitério do Caju, onde foi cremado, às 15h de hoje. Também tradutor, ele teve falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca, dentro de sua casa, em Ipanema (Zona Sul).

Filho de Millôr, o artista gráfico e jornalista Ivan Fernandes, de 58 anos, lembrou os momentos que passou ao lado do pai.

“Foi um convívio maravilhoso. Ele era assim, a prova são todos estes amigos aqui”, disse. “Ele tinha uma coisa que chamava de bate-pronto. Uma vez, numa noite de autógrafo, alguém quis fazer uma brincadeira de mau gosto e pediu para ele escrever qualquer besteira no livro. Ele respondeu: "então dita". Uma coisa que ele me ensinou é que você jamais deve usar o humor para humilhar alguém. Pode atacar, mas nunca humilhar a pessoa".

Amigo de Millôr, o arquiteto Paulo Casé lembrou os encontros ‘religiosos’ com o artista.

“Nós temos um compromisso aos sábados, às 14h, há 33 anos. E eu dizia que o tópico das nossos encontros era não jogar conversa fora. E ouvir o Millôr era um aprendizado. Então eu era um privilegiado. Eu só não, éramos mais de 30”.

Já o escritor Ruy Castro recordou as oportunidades que teve para conversar com Millôr.

“Desde 1968, quando eu conheci, todos os dias suas frases me vêm à cabeça para iluminar as coisas. Fui leitor e amigo”, disse. “Ele era muito inteligente. Se pegar todos os frasistas europeus e misturar em um liquidificador, não dá meio copo de Millôr”.

O irmão mais velho, Hélio Fernandes, emocionou-se ao falar de Millôr.

“Ele já nasceu extraordinário”, definiu. “Em qualquer vetor da arte meu irmão era fantástico. O gênio mais eclético que conheci”.

O humorista Marcelo Madureira, integrante do Casseta & Planeta, lamentou a perda de Millôr, e afirmou que o humor brasileiro ‘está mais fraco’.

“Nem todo intelectual é humorista. E nem todo humorista é intelectual. Millôr reuniu as duas qualidades. Perdemos muito com isso. Não vejo nenhum humorista com esse estofo, de alguém que traduziu Hamlet”, comparou ele, que depois relembrou a morte de Chico Anysio. “A bruxa tá solta, quero saber quando teremos boas notícias boas, como seriam as mortes de José Sarney, Jader Barbalho ou Paulo Maluf”.

Millôr tinha dois filhos, Ivan e Paula, e um neto, Gabriel. Ele foi casado com Wanda Rubino Fernandes. De acordo com sua certidão, Millôr nasceu no dia 27 de maio de 1924, embora ele dissesse que a data correta era 16 de agosto do ano anterior.

Chico Anysio e Millôr: talento insubstituível

Num espaço de menos de uma semana, a terra ficou mais pobre, e o céu, mais iluminado. Foram-se Chico Anysio e Millôr Fernandes, dois gênios das artes, das letras, do humor, do pensamento, da inteligência, da irreverência, do bom gosto. Quando o Brasil ainda se recuperava, ou tentava se recuperar, da perda do pai de Painho, Azamuja, Alberto Roberto, Bozó e Salomé, entre tantos outros, vem a notícia de que Millôr Fernandes também partiu. Só nos resta imaginar como deve estar divertido lá em cima.

Autor de tiradas memoráveis, Millôr, assim como Chico, não se contentava com pouco: era desenhista, tradutor, jornalista, roteirista de cinema e dramaturgo. Enfim, um artista completo.

Em 1985, Millôr passou a ser dono de um espaço cativo na página 11 da editoria de Opiniãodo Jornal do Brasil. Suas frases e desenhos marcaram época, temperados com o habitual humor, sutil e enxuto. Sua participação no JB seguiu até 1992,  e enriqueceu ainda mais nosso acervo. Quando deixou o jornal, ele não disse que estava indo embora: comunicou aos leitores que sairia de férias para descansar um pouco.

No entanto, muito antes de se tornar colaborador do JB, Millôr já frequentava nossas páginas. Na verdade, nós é que o frequentávamos. Numa entrevista publicada em 21 de abril de 1957 no Suplemento dominical, o gênio, então com 33 anos de idade, já se manifestava. Veja como o próprio Millôr se definiu na época, a pedido da jornalista:

“Eu sou humorista contra vontade. Um teatrólogo, porque o Armando Couto me chateou tanto que escrevi uma peça. Vou fazer cinema porque no momento me considero um sujeito sem profissão. Em matéria de atividades, a de que mais gosto é ir à praia. Calço sapato 40, mas poderia calçar 42 do mesmo jeito – não me doeria mais nem menos. Nunca vi programa de televisão que prestasse. Sou, para mal ou para bem, um sujeito eclético. Gosto de todas as pessoas, de todas as coisas, de todos os esportes, gosto de ficar em casa, de conversar na rua, de ficar calado. Só não gosto mesmo de televisão, de rádio e de comer. Tenho 33 anos: na idade em que Cristo fez uma religião, eu só fiz o Pif-Paf. Acredito profundamente no corpo, mas sou um atleta frustrado. Como qualquer concretista, também leio cinco línguas ('como qualsiasi concretiste yo aussi read cinco languages'). Não sou católico, mas tenho minhas relações diretas com Deus. E... chega”.

Descanse em paz, professor. Muito obrigado, e divirta-se lá em cima.