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Diretor português fala sobre filme candidato ao Urso e co-produzido pelo Brasil

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BERLIM - A seleção de Tabu, de Miguel Gomes para a mostra competitiva do Festival de Berlim foi uma ótima notícia para Portugal, principalmente levando em conta a crise que afeta o país, com reflexo imediato na cultura e nas artes.

Além disso, a indicação acaba com uma ausência de 12 anos do país mostra competitiva. O último filme de Portugal selecionado para a competição oficial na Berlinale foi Glória, de Manuela Viegas, em 1999.

Ter Tabu no principal pódio do festival também foi importante para o Brasil (principalmente num ano em que nenhum título brasileiro concorre ao Urso),  já que  é um dos produtores em conjunto com Portugal, Alemanha e França. A participação brasileira se dá através da Agência Nacional de Cinema (ANCINE).

O filme foi  mostrado hoje (14.02) numa prévia para a imprensa, que antecedeu à sessão de gala à noite no Palácio dos Festivais.

 Filmado em P&B e adotando um viés surrealista, Tabu tem um bom elenco, que inclui Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Carloto Cotta.,  Isabel Cardoso, Manuel Mesquita e o brasileiro Ivo Müller, estreante em longas.

A história segue três mulheres que moram no mesmo andar de um edifício em Lisboa e compartilham sua solidão.

Aurora – uma idosa temperamental que vive com sua empregada Santa, uma cabo-verdiana de meia idade – e Pilar, sua vizinha, uma economista aposentada, muito católica, que dedica todo o seu tempo a ONGs e causas sociais.

Na noite do Ano Novo, Aurora é  hospitalizada de madrugada e, antes de morrer,  pronuncia um nome que ninguém tinha ouvido antes: Gian-Luca Ventura.

Ao decidirem sair à procura de Ventura, Pilar e Santa descobrem um episódio do passado de Aurora, uma história de amor e crime que aconteceu há 50 anos na África.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Gomes disse que está muito contente com a seleção  mas não tem muita expectativa de  ganhar o Urso.

“Berlim é o festival que tem tido menos apetite por filmes portugueses, com mais presenças em Cannes e Veneza. Num certo sentido, é como participar de um jogo de futebol fora de casa. Mas isto não é um jogo.... De qualquer forma, não virarei a cara a um urso se ele me aparecer à frente”, brincou.

Gomes contou que a origem do filme partiu de uma  pessoa de sua família que tem vários pontos em comum com a personagem de Pilar.

“Ela mora sozinha, é católica praticante, se dedica a atividades humanitárias e adora cinema. Foi inclusive a responsável por eu ter me interessado por ver filmes quando era criança. Ela me contou a história do seu relacionamento com uma vizinha,  que muitas vezes se refugiava  na sua casa acusando a empregada africana de aprisioná-la no seu quarto à noite e de outras maldades, que nunca foram provadas”, narrou o diretor explicando que o cerne do seu filme é a passagem do tempo e coisas que desapareceram.

“Há uma elipse no filme, que o leva para 50 anos atrás, trazendo personagens já idosos para suas vidas ainda jovens e uma sociedade pós-colonial para o  tempo do colonialismo.  O filme fala de coisas que se acabaram: uma pessoa que morre, uma sociedade extinta, um tempo que só pode existir na memória de quem o viveu. Quisemos também conectar isso com o cinema do passado e por isso optamos pela filmagem em P&B”, que é também algo em extinção”, explicou ressalvando que o processo foi bem simples.

“Fizemos um trabalho preparatório para entender as gradações da cor, usamos uma Digital 7D e os nossos olhos para ver, nada de muito científico”, analisa.

Quanto à segunda parte do filme, praticamente muda, Gomes diz que não quis fazer um pastiche de um filme mudo moderno.

 “Eu queria buscar um caminho que preservasse  a essência e a beleza. Também não estou convicto que essa segunda parte seja tecnicamente muda. O diálogo é suprimido, mas há uma voz narrativa que reconta a sequência dos eventos que acontecem neste segmento do filme. E há as cartas que Ventura e Autora trocam. Alguém está contando uma história para alguém que a está ouvindo. Entre a memória de Ventura e Pilar e a visualização  de Santa da narrativa dele, não há lugar para diálogos. É como se as palavras trocadas  tivessem se perdido no tempo”, expõe o diretor, contando que, embora tivesse seguido a trilha do roteiro, nesta segunda parte houve poucos ensaios com os atores.

“Diferentemente da primeira fase, na qual o trabalho de ensaio com os atores foi intenso”, complementa.

Tabu é o terceiro longa-metragem de Gomes,  depois de A cara que mereces Aquele querido mês de agosto. Esse último fez muito sucesso em Cannes,  ganhou  vários prêmios, inclusive o da crítica na Mostra Internacional de São Paulo em 2008 e projetou o diretor internacionalmente.

Com vários projetos em mente, Gomes avisa que não tem uma boa notícia quanto à produção em seu país.