'O Brado Retumbante' cria Brasil fictício e líder honesto

O Brado Retumbante, minissérie da Globo que estreia no próximo dia 17, pretende retratar o que poderia ser um simulacro do Brasil. Na trama, o autor Euclydes Marinho, incomodado com a onipresente corrupção do país, escreveu uma história sobre um presidente da República íntegro e honesto - porém mulherengo -, que também é mostrado na intimidade. Vivido pelo protagonista Domingos Montagner, o presidente Paulo Ventura assume o cargo após uma manobra política e se torna uma espécie de fantoche do sistema. A produção de oito capítulos mostra a trajetória do personagem como deputado até o momento em que um grupo de velhas raposas" da política articula para que ele se torne presidente da Câmara.

Em seguida, um acidente aéreo mata o então presidente e seu vice. Paulo Ventura assume os 15 meses restantes como líder do país. Neste cenário de conchavos, a trama também mostra a relação do protagonista com sua ex-mulher Antônia, de Maria Fernanda Cândido, que se torna primeira-dama ao retornar para o marido. E também os conflitos com os filhos, especialmente com o transexual Julio/Julie, vivido pelo estreante Murilo Armacollo. Para pensar nas tramoias políticas, o autor convidou os jornalistas Guilherme Fiúza e Nelson Motta, além da socióloga Denise Bandeira para auxiliá-lo na trama.

Na direção, Euclydes estreia sua primeira parceria com o Ricardo Waddington, diretor de núcleo. "Quis mostrar que, por trás de todo presidente, existe um ser humano que tem dor de barriga, mãe e mulher. Mas é tudo ficção. Não tem nada a ver com alguém que está na política ou passou por ela", afirma o autor. Para tornar o produto com um acabamento mais requintado e próximo ao cinema, todos os cenários desenvolvidos por Isabela Urman, com produção de arte de Nininha Medicis, são fechados. Ou seja, diferentemente dos demais cenários da teledramaturgia, eles possuem teto e os bastidores dos estúdios não ficam expostos, o que requer uma iluminação diferenciada, com direção de fotografia de Fred Rangel. "Nos inspiramos na Riviera Francesa para a criação da sede do governo, que tem arquitetura eclética e traços de Art Nouveau. Nos interiores, quadros de Portinari e um toque modernista", frisa a cenógrafa.

Nestes cenários de traços elegantes e sóbrios, a minissérie pretende se estabelecer como um produto denso no horário da segunda linha de shows, deixado anteriormente por O Astro e que, em breve, vai ser ocupado pela minissérie Gabriela. "Há muito tempo a Globo não visitava esse universo maduro. Isso foi o que mais me atraiu. E é delicado falar desse assunto. É sensível abordar uma trama que mostra a vida do maior representante do país", avalia Ricardo Waddington. Em meio ao intenso panorama onde se passa a história, os autores inseriram breves pitadas de humor através dos personagens de Julieta, vivida por Maria do Carmo Soares, que interpreta a neurótica mãe do presidente. Ela contracena muito com Beijo, o tio trambiqueiro de Paulo Ventura, de Otávio Augusto.

Isso sem falar nas armações da bela Marta, de Juliana Schalch, que vive a filha bipolar do presidente. "Ela movimenta muito a vida do pai, que é um presidente que o Brasil gostaria muito de ter", acredita Juliana. Já no comando de toda a articulação política para colocar o protagonista no poder, está o Senador, vivido por Luiz Carlos Miéle. Ao seu lado, o vilão e maior inimigo de Paulo no poder, o Ministro da Justiça Floriano, interpretado por José Wilker. O duelo de ambos e a obsessão do protagonista em colocá-lo na cadeia promete ser um dos focos da história. "Os fatos políticos que acontecem na minissérie podem ser identificados em vários momentos da História mundial. Em contrapartida, vamos mostrar um presidente em seus assuntos mais cotidianos", esmiuça Domingos Montagner, que estreia como protagonista na história que conta com direção geral de Gustavo Fernandez.

"Vamos usar uma estética bem realista e pouca luz para criar um suspense cinematográfico. Quero aproximar o máximo possível do documental, com um tom mais jornalístico", descreve o diretor.