Filme alemão que aborda a doença do sono na África é sucesso em Nova York

Sleeping sickness é o terceiro longa do alemão Ulrich Köhler,  que tem no currículo Bungalow (2002) e Windows on Monday (2006), ainda não lançados comercialmente no Brasil. Seu novo trabalho – Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim – foi bastante aplaudido na sessão prévia para a imprensa da 49ª edição do  Festival de Nova York.

O diretor faz parte do que está sendo chamado de  “Escola de Berlim”, dentro do novo cinema alemão; isto, apesar de não ter estudado em Berlim e sim em Hamburgo e na França.

O filme se desenvolve em duas vertentes. Há uma história manifesta que segue o médico alemão Ebbo Velten, que está em Camarões dirigindo um programa com fundos europeus para erradicação e controle da doença do sono, cuja transmissão se dá pela mosca tsé-tsé, que só existe na África.  Aparentemente seu trabalho está terminado, ele está pronto para voltar à Alemanha com sua esposa e a filha adolescente: elas retornam à terra natal e Velten fica um pouco mais para resolver pendências.

A outra abordagem faz uma metáfora com o estágio de dormência – assim como a doença, cujos sintomas não são exteriores e o desenvolvimento é silencioso – que assola a região. Parece que Velten ficou na África, alguns anos se passaram, certos fatos  são informados em conversas espontâneas, inclusive quanto ao passado e o futuro, revelações que, em última análise, tornam as coisas mais enigmáticas. Há uma incerteza nas ações, que sempre tomam rumos inesperados, mas são justamente esses pontos que dão qualidade e interesse ao filme, cujo simbolismo se estende até ao final.  

Köhler, simpático e receptivo, disse na coletiva após a projeção,  que a doença é o ponto inicial, mas o filme explora um grande número de assuntos, particularmente a situação complicada dos expatriados ocidentais na África.

“O título e a escolha da situação são metafóricos. Quando eu comecei a escrever o roteiro, a endemia ainda não era o cerne do meu filme, eu ainda o estava procurando. Eu me encontrei com alguns especialistas nesse campo e isso realmente despertou minha atenção”, contou o diretor, enfatizando que o alvo principal não é falar sobre a doença e sim a alienação das pessoas vivendo longe de suas raízes.

“Eu não acho que os protagonistas sejam desprovidos de  emoções e/ou sentimentos, mas é muito difícil e complexo viver numa sociedade na qual eles,  na realidade, não pertencem a ela;  mas, ao mesmo tempo, se acostumam ao status e à autonomia que ela lhes dá e que não teriam se tivessem ficado na Alemanha. É difícil para eles desistir disso”.

Embora não reconheça que a história e os personagens são baseados em elementos autobiográficos, Köhler lembrou que seus pais trabalharam no setor humanitário e isso lhe deu uma visão complexa da situação dos expatriados na África. 

“Há europeus que vivem felizes lá,  mas há também pessoas como o personagem de Girardot que se sentem um pouco perdidos e se transformam em alcoólatras. O destino escolhido para Gaspard também tem uma função dramática, mas eu espero que eles tenham passado a mensagem que eu queria dar”.

Köhler, que faz em seu filme uma crítica ácida à “ajuda desenvolvimentista” praticada na África, ressaltou que, a seu ver, o mercado não pode resolver todos os problemas.

“Eu acho que a ajuda não tem sido um sucesso. De qualquer forma, eu não sou um economista, tenho sorte de ser apenas um diretor de filmes e não me diz respeito fornecer respostas. Mas eu acho que há uma ingenuidade nas crenças ocidentais que todos os problemas da África podem ser resolvidos com muito dinheiro. Eu já vi projetos lançados com imenso entusiasmo e recursos, mas que falharam em menos de cinco anos”.

Nas suas pesquisas para fazer o filme, Köhler contou que, além de obras literárias como a de Joseph Conrad – o escritor britânico de origem polonesa, que em seus trabalhos, abordou personagens em situações extremas, entre eles o famoso “O Coração das Trevas” –  também assistiu a muitos filmes.

“Mas a realidade de Sleeping Sickness não é refletida nem no romantismo de Out of África (Entre dois amores, de Sidney Pollack) nem na dureza de filmes onde vemos gente armada matando pessoas. Na verdade, Taveb Salih (romancista sudanês, autor de “Tempo de migrar para o norte”, 1966) mais do que Conrad, me deu a coragem de fazer o filme porque eu perguntava a mim mesmo se, como europeu, eu tinha o direito de fazer um filme sobre a África”.