Novo filme de Abel Ferrara aborda o fim do mundo de forma serena 

Diretor fala sobre seu novo filme no festival de cinema de Nova York

4:44 – Last day on earth, novo trabalho do diretor Abel Ferrara, que concorreu ao Leão de Ouro em Veneza,  foi o destaque na última segunda-feira (26) da 49ª edição do Festival de Nova York.

Mostrado numa sessão prévia para a imprensa, o filme recebeu aplausos apenas educados da platéia de jornalistas, certamente surpresa com o tom mais ameno do cineasta norte americano nascido no Bronx.

O filme aborda o fim do mundo de forma serena e reflexiva, bem distante do viés de trabalhos anteriores de Ferrara, quase sempre aprofundados nas patologias morais dos personagens ou na marginalidade de  contextos criminais como foi visto em Cidade do medo, O rei de Nova York, Vicio frenético, Os chefões e outros.

A história de 4:44 – Last day on earth descreve as últimas 24 horas da raça humana, com o foco num casal formado por Cisco (Willem Dafoe), um ator bem sucedido e a pintora Skye (Shanyn Leigh).  Instalados em seu apartamento, ambos se ocupam de suas tarefas rotineiras domésticas e profissionais, enquanto aguardam o dia seguinte quando a vida, com hora marcada para 4:44 minutos, deixará de existir na Terra.

     O tema, por sua vez, está em voga no trabalho de vários cineastas como Roland Emmerich, que no seu  2012, prevê o fim do planeta para aquele ano e no angustiante Melancolia, de Lars von Trier..

   O filme de Ferrara, no entanto – diferentemente de tais produções e de algumas outras do gênero – não mostra desespero, caos ou conseqüências relacionadas com o apocalipse. Sem a costumeira acidez do diretor, a narrativa é tranqüila, até um pouco demais para um tema tão definitivo. 

     Imagens transmitidas pela tevê e Internet mostram o Dalai Lama atribuindo a catástrofe à ganância do ser humano e o ex-vice presidente americano Al Gore dando explicações sobre o impacto das mudanças climáticas na Terra.

     Na coletiva após a projeção – da qual participou o Jornal do Brasil –  Ferrara falou sobre seu filme, da mesma forma descontraída como o idealizou.

     “O tema está no ar e eu queria dar minha versão da coisa”, explicou  o diretor justificando o conformismo dos personagens com o que vai acontecer.

    “Eles sabem que o fim é inevitável, que vão morrer nesse dia e que ninguém sobreviverá. Então, é melhor pensar no que cada um representa para o outro”, disse, ressalvando que o objetivo não era explorar os cataclismas e grandes efeitos especiais. Daí, a opção por cenas quase poéticas feitas com as luzes das auroras boreais.

     “O alvo principal do filme é o homem que está destruindo o planeta e os demais personagens encaram essa realidade. Por isso, não há catástrofes naturais, meteoros ameaçadores ou algum ato vindo de Deus”, ressaltou Ferrara.     

     Apesar do tom, o filme não deixa de ser uma espécie de manifesto contra o consumismo exacerbado e as agressões que a humanidade vem praticando contra o planeta.

    “Acho que não deveríamos continuar culpando a China ou a Índia por também  quererem ter largo acesso aos bens de consumo. O que acontece é que, há bastante tempo, vendemos um sonho ligado ao consumo material. Mais cedo ou mais tarde, o fim do mundo vai chegar”, assegura.

     Ao final, Ferrara disse que estava muito satisfeito de ter feito o filme, cujo resultado atribui aos atores e à equipe técnica.

     “Filme é uma coisa de time e eu tentei trazer o meu para este”, concluiu o diretor de 61 anos.