O olhar desolador de Kaurismaki

Le Havre, novo trabalho do diretor Aki Kaurismaki, embora retrate um drama triste e pesado, foi muito bem recebido na sessão prévia para a imprensa da 49ª edição do Festival de Nova York. Lançado no último Festival de Cannes, onde concorreu à Palma e ganhou o Prêmio da Crítica Internacional (Fipresci), o filme é mais um com o tema recorrente do diretor finlandês sobre os marginalizados da sociedade, como já havia mostrado na sua trilogia da exclusão, iniciada com o tema do desemprego (Nuvens passageiras), seguida pelo drama dos moradores de rua (O Homem sem passado) e encerrada com a abordagem da solidão (Luzes do por do sol).

Kaurismaki não é um novato por aqui. Além de ter apresentado a trilogia em edições anteriores, ele foi um dos destaques em 1989 com o ótimo Juha, um filme mudo realizado em preto e branco, sobre a mulher de um fazendeiro, seduzida por um forasteiro.

O diretor é o irmão mais velho do também cineasta Mika Kaurismaki (Brasileirinho), mas bem diferente dele. Enquanto Mika, que vive boa parte de seu tempo no Brasil, expressa sua arte em filmes extrovertidos e musicais, Aki prefere retratar as mazelas da sua Finlândia e sua casta de excluídos.

O filme é ambientado na cidade de Le Havre, onde um menino negro, refugiado da África, desembarca por acidente. Lá ele encontra Marcel Marx (André Wilms), escritor e conhecido boêmio, que se auto-exilou na cidade, onde trabalha como engraxate. Desistiu do seu sonho de se tornar um autor reconhecido, vive feliz com seu trabalho sua esposa Arletty e indo ao seu bar preferido.

Quando Arletty adoece, Marcel precisa encontrar forças para viver com a indiferença humana e a máquina de um estado representado pela polícia, que segue a pista do jovem refugiado. Kaurismaki explica, que embora tenha considerado importante, tratar do tema num filme, não tem respostas ou uma proposta de solução para o problema. 

Narrado num tom menos irônico que os anteriores, o filme conta com a excelente fotografia de Timo Salminen, colaborador habitual de Kaurismaki, que usando gels e filtros para criar tonalidades intensas, consegue transpor para as telas reflexos que lembram a obra de Edward Hopper, o pintor americano que traduzia nas telas dos seus quadros, dramas que Aki joga nas telas do cinema.

“Não tenho esperança alguma em relação ao nosso planeta quando vejo os homens que habitam nele. Aos 10 anos, certas coisas já me tinham desiludido, mas nessa época, eu fingia que acreditava nelas para suscitar esperança nos outros”, diz o diretor, que também não aprova os filmes que são realizados atualmente. “O cinema não trata o suficiente do agravamento contínuo da crise econômica, política e, sobretudo, moral, como a causada pela questão não resolvida dos refugiados”, afirma.