Obra póstuma de Rodrigo de Souza Leão mostra seu lado esquizofrênico

Escritor começa o livro "O esquizóide" com a confissão: "eu sou esquizofrênico"

Pode-se dizer que loucura e literatura sempre tiveram algo em comum. A primeira caracteriza-se por uma certa desordem, pela inauguração de um sentido que não é o da maioria. A boa literatura, sobretudo a poesia, caminha na mesma direção. 

Há quem diga que a literatura é o único lugar onde se pode instaurar a subversão. Sua sintaxe, para ser compreendida, necessita de uma outra ordem. Tira-se o sentido original de uma palavra e está, em princípio, estabelecido o caos; muda-se a combinação entre determinados vocábulos e este caos se estende ao infinito. Desde a antiguidade, filósofos que pensaram a literatura, começando por Aristóteles, preocuparam-se em escrever algum tipo de arte poética, quem sabe um modo de limitar o caos a determinada disciplina.

Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), em O esquizóide (livro póstumo), começa sua narrativa dizendo: “Eu sou esquizofrênico.” Verdade. O autor transitou entre o mundo da lucidez – digamos assim sobre a realidade que nos cerca – e internações em clínicas psiquiátricas. Ao mesmo tempo, tornou-se escritor, escreveu romances. 

Portanto, algo que pertence ao gênero da ficção. O leitor, inquieto e em dúvida, poderá perguntar: como um esquizofrênico, alguém que possui sérios transtornos mentais, pode escrever uma obra de arte plena de sentido? Teríamos então que compactuar com o pedido deste narrador em primeira pessoa: “Peço que duvidem de mim.” Mas não é isso que acontece. Seguimos Rodrigo em seu périplo de vida e, mesmo sem querer, acreditamos nele. Esse narrador é muito convincente. Como duvidar de algo que é comum a todos nós: o estranhamento que a própria vida e literatura refletem e provocam?

Esta arte feita de palavras, para ser verdadeira é constituída de duplos. E nada melhor do que o romance de Rodrigo para reafirmar essa verdade. Sua história começa quando ele já tem vinte e três anos e tenta levar uma vida comum, como todos os jovens. Mas vem a crise, e a partir dela tudo se transforma. O que a provocou, para ele, no entanto, não é fruto de uma imaginação fértil, mas a mais pura verdade. Para nós outros, os da esfera da normalidade, tudo não deixa de ser criação de sua mente.

O narrador construirá toda uma vida que ora beira a realidade comum a todos, como a leitura, a escrita, o amor e o desamor a uma mulher, o afeto e o desafeto aos (e dos) pais e familiares, ora trilha a realidade comum apenas a ele, onde estará sempre presente a “bomba” da qual ele se diz inoculado, a possibilidade de que ela, de um momento para outro, exploda dentro dele e acabe com tudo. Ainda há as pessoas que o perseguem. Enfim, Rodrigo, também o nome do narrador, vive duplamente, como a necessidade da palavra e seu desdobramento em metáforas.

Optando apenas pelo âmbito literário, temos uma narrativa em linguagem cotidiana, que apesar de poucas páginas, descreve em pormenor as inquietações comuns à maioria das pessoas.

 Freud, codificando a psicanálise, já anunciava que o sintoma é uma espécie de linguagem, uma manifestação de busca da cura, um tipo de reconstrução da realidade em forma de ficção. O esquizoide insere-se numa ordem que tem como ponto de partida uma aparente desordem, semelhante ao estatuto da literatura como reconstrução e atribuição de sentido a uma determinada realidade. Através dela, podemos perceber o grito de dor e dúvida de toda a humanidade. 

A partir desse ponto de vista, o livro apresentaria uma questão que, na verdade, é comum a todo ser humano: não estaríamos tão distantes do modo de vida do narrador deste livro. Sentiríamos como ele, ao tentar definir sua doença: “É acordar no escuro estando tudo claro. É como se só existisse pesadelo dentro do sonho. É ir dormir e quando acordar ver que começa mais uma vez o pesadelo. É ouvir vozes de uma ventania. Ser levado rumo à floresta escura e ao abismo. Ser esquizofrênico é descer numa montanha-russa que não termina nunca. Ou simplesmente tomar os remédios.” Por isso, a nós “normais”, o mundo-shopping-center-parque de diversões dos dias de hoje... Tantos os remédios!

Ler a obra de Rodrigo, não só este livro como os anteriores (Todos os cachorros são azuis, Me roubaram uns dias contados), é tocar numa questão desagradável mas necessária. Se o sintoma é uma espécie de linguagem que tenta recuperar uma realidade perdida, a literatura como linguagem tornar-se-ia algo comum tanto aos “loucos” como aos sãos, mostrando que a fronteira que nos separa não se mostra tão distinta.

*Haron Gamal é professor e doutor em literatura brasileira pela UFRJ