Jornalista haitiano lança ficção sobre seu exílio durante a ditadura de Baby Doc

Nada melhor do que uma ilha do Caribe, que só não foi esquecida devido às várias tragédias recentes, para fazer refletir sobre o hibridismo cultural de nosso tempo. Sobretudo se essa ilha-país obrigou os seus filhos – escritores, jornalistas e intelectuais – a partirem para o exílio num passado não muito distante.

A vida em terra estrangeira, ao mesmo tempo em que provoca o distanciamento geográfico do exilado em relação ao seu local de origem, permite sua aproximação à cultura “perdida”, através da imaginação e do pensamento. Volta-se de modo mais intenso à infância, às lembranças queridas, aos amigos que ficaram. É o que acontece com a prosa de Dany Laferrière, em País sem chapéu.

Não que o livro seja uma espécie de “em busca do tempo perdido” no universo haitiano. Mas a reflexão de um homem que retorna ao seu país vinte anos depois de ter partido, redescobrindo em cada objeto uma espécie de sabor primitivo que mesmo a passagem do tempo e a convivência com os costumes adquiridos, na sua peregrinação pelo mundo, não conseguiram fazer esquecer. Ainda que os problemas de seu país natal tenham se multiplicado por dez e o sofrimento seja tamanho a ponto de ele dizer que no Haiti todos estão mortos, como afirma ao explicar o porquê do nome do livro: “país sem chapéu, é assim que se chama o lado de lá no Haiti, porque nunca ninguém foi enterrado com o seu chapéu.”

Laferrière, nascido em 1953, foi obrigado deixar o Haiti, aos 23 anos de idade – exercia a profissão de jornalista – e exilar-se no Canadá, devido à ditadura de Duvalier (Baby Doc, 1971-86). Caminho semelhante já havia trilhado seu pai, também exilado, mas por Duvalier pai (Papa Doc, 1957-71). Essas passagens são muito bem retratadas no livro, que, apesar de se dizer ficção, tem muitos trechos com experiências da vida do próprio autor: “Aos dezenove anos, tornei-me jornalista, em plena ditadura dos Duvalier. Meu pai, também jornalista, foi expulso do país por François Duvalier. O filho deste, Jean Claude, levou-me ao exílio. Pai e filho, presidentes. Pai e filho, exilados. Mesmo destino.”

Trecho pungente acrescenta-se quando o narrador relembra a fala de seu pai, procurado por ele uma única vez na vida, no Brooklin, em Nova York: “– Quem está aí? – Teu filho – respondi. – Não tenho filhos, todos os meus filhos morreram. – Sou eu, pai, vim ver você. – Volte para o lugar de onde veio, todos os meus filhos morreram no Haiti. – Mas eu estou vivo, pai. – Não, só há mortos no Haiti, mortos ou zumbis.”

A literatura híbrida, ou anfíbia, caracteriza-se pelo desenraizamento ora geográfico, ora cultural, ora provocado pela loucura. E essa questão é urgente na narrativa de País sem chapéu. O autor, que pinta com cores fortes o país sonhado, não esquece de mostrar uma legião de deserdados, mais mortos do que vivos, no país real.

Dany Laferrière surge como escritor propriamente no exterior. Expressa-se numa língua que não é a sua (a língua materna do autor é o créole), e vive num país estrangeiro. Momento certo para descobrir que a escrita seria a única forma de o manter vivo, de manter viva a cultura de onde viera, de mostrar que vida pode significar o registro do amor e da dor, e a morte pode ser o completo esquecimento.

Enfim, o que são países, como o Haiti, com homens e mulheres oriundos da África e destinados a serem escravos no ocidente, que serviram como força de trabalho para que potências europeias promovessem a exploração e o colonialismo para depois abandoná- los ao deus-dará no momento em que tal empreitada já não era lucrativa? Ainda assim a herança deixada no país pela França serve como instrumento de inserção cultural no mundo “civilizado”, uma tentativa empreendida pelos intelectuais haitianos de resgatar, igual por igual, o que lhes foi tirado. A escrita em francês de Dany Laferrière não seria uma opção pela francofonia, pois essa palavra tem raízes políticas (como diz o autor), mas um modo de afirmar que a língua absorvida pelo colonizado tem, muitas vezes, o vigor primitivo que a do colonizador já não possui.

Embora o narrador, neste retorno, reconheça o seu país, seu olhar é cindido, percebe que algo se rompeu, sente-se como se já não fizesse parte daquela paisagem humana. Assim pode observar melhor e tirar suas conclusões quase como um estrangeiro.

A maior marca de hibridismo cultural que esse livro comporta acontece, ao meu ver, na simbologia entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Um personagem pergunta ao autor- narrador: “Desculpe a franqueza, mas gostaria de saber como o senhor pode escrever sobre os mortos se nunca morreu.” A mesma experiência de Ulisses (este também só retornou à sua ilha vinte anos depois) ao visitar o Hades e de lá voltar vivo, o narrador vivenciará, agora com o objetivo de restaurar a antiga cultura que os primeiros negros haitianos trouxeram da África, escrevê-la, para que, recuperando-a, talvez seja capaz de aproximar dos deuses um povo que não pode perder o seu passado.

 *Haron Gamal é professor e doutor em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.