Festival de Teatro da Língua Portuguesa chega à quarta edição

Festlip apresenta ao espectador brasileiro espetáculos a que eles dificilmente teriam acesso

A proximidade linguística não garante o intercâmbio cultural. Ciente disto, Tânia Pires idealizou o Festlip (Festival de Teatro da Língua Portuguesa), que, como o próprio nome indica, reúne espetáculos de países de língua portuguesa. A iniciativa chega à quarta edição, colocando o espectador brasileiro diante de uma produção teatral à qual dificilmente costuma ter acesso. Até o próximo dia 31, o público está tendo a oportunidade de conferir 13 encenações de Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde, todas com entrada franca.

Novidade deste ano, a Galícia surge representada com Memoria das memorias dun neno labrego, do grupo Abrapalabra Creacións Escénicas, sediado em Santiago de Compostela. “Abrimos um módulo destinado a amigos da língua portuguesa e inserimos a Galícia”, informa Tânia Pires, idealizadora do evento, destacando a montagem adaptada de uma obra de Xosé Neira Vilas, centrada na jornada de um menino camponês na década de 40.

Outro destaque do Festlip é Cidade velha, do grupo Raiz di Polon, de Cabo Verde, que soma 20 anos de atividades. “A companhia já viajou para mais de 50 países e desenvolve um trabalho social com crianças da periferia. Muitas se tornaram bailarinas”, revela Tânia. Cidade velha descortina um panorama da história de Cabo Verde, desde o povoamento até a independência, assolada pela fome.

O país também é representado pela encenação de Um homem, uma mulher e um frigorífico, do grupo Sikinada, que adota como ponto de partida o momento em que o marido presenteia a mulher com uma geladeira pelos 25 anos de casamento; e por Glória, da Companhia de Teatro Solaris, retrato de uma personagem que transita entre passado e presente.

Para compor a programação do festival, realizado pela Talu Produções, Tânia Pires atua em algumas frentes. “Faço a curadoria diretamente, viajando para os países. Vou a Portugal todos os anos. O nosso edital também é divulgado na imprensa daqueles países, o que nos garante um número considerável de inscrições. E conto com a ajuda de curadores espalhados fora do Brasil”, conta.

Ao longo desses quatro anos de experiência, Tânia conseguiu traçar um perfil do teatro de cada país, o que não significa que a produção possa ser reduzida a uma ou duas características generalizantes. Em todo caso, sobressai, por exemplo, no teatro de Moçambique, a preocupação em retratar a mulher, da opressão à libertação.

“Há no país um ministério que cuida exclusivamente dos direitos da mulher, da luta dela por espaço no mercado de trabalho. No interior, ainda existem homens que vivem com duas, três mulheres. O processo de conscientização ocorre através do teatro. Mas as peças costumam ser leves, diferentemente das de Angola, que tende a valorizar o drama e a tragédia e usa o teatro como instrumento de catarse”, assinala Tânia.

Os títulos dos espetáculos de Moçambique evidenciam essa característica: Mulher asfalto, do grupo Kuvona Moçambique, é centrado na trajetória da prostituta Lucrécia Paco; Ser mulher, da Companhia de Teatro Kudumba, descortina a situação da mulher a partir do cotidiano de uma família. Já A cavaqueira do poste envereda pela temática socioeconômica ao eleger como personagens dois mendigos à espera de um milionário que teria prometido reverter a situação de ambos. Angola chega com Hotel Komarca, do grupo Henrique Artes, sobre o convívio de sete detentos, e O armário e a cama, do Elinga Teatro, abordando um triângulo amoroso.

Em relação ao teatro português, Tânia sublinha a escalada das técnicas de improviso. “É algo que está começando por lá”, assinala, referindo-se a Improvisos, do grupo Mundo Improviso, no qual os atores improvisam sem que nada tenha sido combinado. “Há muito desconhecimento entre os teatros de Portugal e do Brasil”, constata Tânia, que selecionou ainda Novecentos, o pianista do oceano, do grupo Peripécia Teatro.

Não poderia faltar, claro, a programação brasileira, que, nesta edição, conta com Cor do Brasil, do Centro de Teatro do Oprimido, evocando a importância de Augusto Boal; e Ana e o tenente, da Íntima Cia. de Teatro, voltada para os desdobramentos imprevistos de uma relação conjugal.

Tânia Pires aproveita para mencionar o perfil das produções teatrais de outros países que costumam integrar a programação do Festlip. “O Timor é um país isolado. Seus espetáculos, não por acaso, resultam ingênuos e espontâneos, além de bastante filiados ao naturalismo. Já em São Tomé e Príncipe podemos encontrar uma produção mais folclórica. Adaptaram, inclusive, O pagador de promessas, de Dias Gomes, para a realidade deles”, menciona.

Além da apresentação de montagens, a programação contará com debates, como a Conferência de intercâmbio da dramaturgia da língua portuguesa, com mediação da crítica, ensaísta e professora Tânia Brandão e a participação de historiadores e dramaturgos. Moacyr Góes apresenta a palestra História do teatro brasileiro através da dramaturgia. O diretor Paulo de Moraes, da Armazém Cia. de Teatro, está oferecendo uma oficina teatral. E há a apresentação de um trabalho em processo, Gandhi in progress, texto de Marcia Zanelatto, com direção de Hugo Moss e interpretação de Fernando Alves Pinto.