Deftones faz show com Cypress Hill, mas sem surpresa

SÃO PAULO - Seria errado dizer que as apresentações de Cypress Hill e Deftones na noite desta segunda, em São Paulo, foram frustrantes. Mesmo assim, ficou uma ponta de lamento. Era tido como certo que as duas bandas brindariam o público com uma parceria ao vivo no palco do Credicard Hall. A mistura não veio, e o público, que não chegou perto de lotar a casa, teve que se contentar com shows distintos.

O anúncio, em janeiro, do show dos rappers do Cypress Hill ao lado dos roqueiros do Deftones logo chamou a atenção. Acostumado a gravar com bandas pesadas, o ícone do hip hop americano dava indícios de que a apresentação guardaria surpresas para os fãs. O próprio Sen Dog, um dos líderes do grupo, deu pistas sobre isso em entrevistas. Mais recentemente, B-Real, o outro vocalista, desconversou.

Prevaleceu a palavra de B-Real. Mas não chegou a comprometer a noite. Mérito, principalmente, do Deftones. A banda liderada pelo vocalista Chino Moreno encontrou seu apogeu no que se refere a shows. Enérgicos, pesados, melódicos, e carismáticos, os integrantes fizeram sua melhor apresentação no Brasil. Esta foi a quarta passagem do Deftones pelo país, que já esteve aqui em 2001, 2007 e 2009.

 

Deftones

O Deftones, formado na Califórnia no início da década de 90, fez uma apresentação, a rigor, muito parecida com a do Lollapalooza que aconteceu em Santiago no Chile no último fim de semana. A exceção foi a faixa Bloody Cape, do quarto álbum do grupo, incluída no meio da apresentação.

A apresentação começou tarde, às 23h40, com a trinca Diamond Eyes, faixa-título do último lançamento do grupo, Rocket Skates e Birthmark. Mesmo tendo um disco novo para apresentar, a escolha do repertório é impecável. A turnê atual do Deftones dosa bem todas as fases do grupo.

Mas a grande surpresa é mesmo a performance de Chino Moreno. Outrora mais comedido, o vocalista parece ter encontrado seu lugar no palco e conduz a banda ao seu apogeu musical. Canta sempre perto do público e consegue reproduzir ao vivo todas as variações vocais que são marca registrada dos discos.

 

Superando o acidente

Stephen Carpenter (guitarra), Abe Cunningham (bateria) e Frank Delgado (samplers) aparentam uma coesão musical que desmonstra que a banda parece ter superado a perda do baixista Cheng Chi - que deixou a banda após sofrer um gravíssimo acidente de automóvel no final de 2008 e hoje permanece em um estado semivegetativo. Sergio Vega, o novo baixista, completa o grupo.

Mas superar o acidente não significa esquecê-lo. Tanto que em um dos diversos momentos em que Moreno conversou com o público, homenageou o amigo ao receber de um fã uma camiseta com a foto de Chi estilizada. "Ele é meu irmão e eu agradeço de coração todas as orações de vocês", disse.

 

Público

O Credicard Hall não chegou nem perto de ficar lotado na noite desta segunda. A pista vip, na frente do palco, tinha imensos espaços vazios. Sorte dos fãs que contaram com espaços maiores para as rodas de pogo. Ainda assim, político, Moreno agradeceu a quem foi. "Está lindo", elogiou.

 

Cypress Hill

O primeiro a subir foi o Cypress Hill, pouco depois das 21h30. Durante cerca de 90 minutos, os rappers Sen Dog e B-Real suaram para manter o público na mão. A dupla lançou mão do carisma para compensar a falta de uma banda fazendo as bases ao vivo. Com todas as principais bases gravadas, a parte musical da performance perdeu força.

Coube então à dupla segurar o público. E isso eles sabem fazer. Com um disco fresquinho nas prateleiras, Rise Up, o Cypress Hill abriu a noite com a trinca Get 'Em Up, Hand on the Pump e When The Shit Goes Down.

Despejaram clássicos dos anos 90 como Insane In The Brain, e quando parecia que a plateia ficaria distraída, emendaram uma seqüência de músicas com sotaque latino como Tequila Sunrise, e Armada Latina do álbum novo.

 

Maconha

A penúltima cartada do Cypress Hill foi uma arma que eles usam regularmente: apologia à maconha. As luzes do palco ficam todas verdes e B-Real acende um cigarro com a droga. Vai começar o chamado "weed medley", a mistura de músicas monotemáticas como I Wanna Get High, Stoned Is The Way Of The Walk, Hits From The Bong e Dr. Greenthumb. É a senha para que no público brotem livremente cigarros de maconha.

Já na segunda metade da apresentação, o Cypress Hill exagerou. Um solo com o DJ do grupo e do percussionista dispersou o público. Demorou para que B-Real e Sen Dog retomassem as rédeas do show. E, por se tratar de um show com um banda pesada, a cartada final foi apelar às guitarras. O anúncio de Rise Up, faixa composta em parceria com o guitarrista Tom Morello, do Rage Against The Machine, era o que faltava.