Annette Bening tenta o Oscar de novo com 'Minhas Mães e Meu Pai'

 

Logo quando este filme começou a aparecer pelos festivais de cinema, veio a suspeita de que Annette Bening e Julianne Moore poderiam concorrer como dupla ao Oscar de Melhor Atriz em 2011. Não aconteceu, mas Bening, que já concorreu três vezes ao Oscar em anos anteriores, foi novamente convocada para disputar a estatueta este ano por Minhas Mães e Meu Pai.

Na trama, Bening e Moore entram em cena como um casal de lésbicas cujo relacionamento de mais de 20 anos se tornou amoroso, estável e afetivo. Em outras palavras: monótono e, definitivamente, sem sexo. Elas têm dois filhos, uma jovem de 18 anos e um adolescente de 15, ambos germinados pelo mesmo sêmen. Como protocolo nos casos de inseminação artificial, a autoria da obra é sempre mantida sob sigilo, a não ser que a "obra em si" complete 18 anos e decida conhecer o doador do premiado esperma. Eis então que, a pedido do irmão, a irmã mais velha decide entrar em contato com seu progenitor. Não é preciso dizer que, diante de um casamento que bocejava emoção, esse terceiro elemento será o ponto de virada para todos os personagens da trama.

A inserção do "doador" na história parece pipocar todos os pequenos problemas guardados embaixo dos travesseiros. Jules, personagem de Julianne Moore, logo vê naquele homem essencialmente bronco uma oportunidade de se sentir novamente admirada. Nic, papel de Bening, o vê como uma ameaça à estabilidade familiar. Os filhos das duas encontram nessa figura masculina uma chance de se descobrirem melhor à medida que precisam passar por todo o processo de apresentação e revisão de quem eles são e o que querem. Por sua vez, Paul (Mark Ruffalo) termina revendo seu estilo de vida a partir do momento em que seu ritmo bon vivant colide com uma estrutura familiar que, não sabia ele, lhe fazia falta.

Há de se destacar a sutileza com que Lisa Cholodenko (High Art), roteirista e diretora da trama, lida com as pequenas intervenções do cotidiano que, de fato, constroem a essência e o caráter de seus personagens. O filme trabalha sempre no limite de uma comédia sobre pequenos conflitos diários em que, mesmo nos momentos mais dramáticos, existe uma percepção bem otimista do ser humano. Ainda que tenha sua honesta porção de frases de efeito, o roteiro não os usa como ferramenta deslocada de espaço e tempo que está ali apenas para cumprir uma cota de diálogos engraçados. As conversas entre os personagens soam bastante naturais e o humor nasce sempre desse ambiente orgânico do núcleo familiar.

Essa naturalidade só acontece porque o maior mérito desta produção está justamente na direção de elenco. Minhas Mães e Meu Pai é um filme dos atores e de quem os posiciona. Da jovem Mia Wasikowska, até então mais conhecida como a Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, Cholodenko consegue tirar a expressão de uma atriz que, sem presença de computação gráfica e efeitos especiais, prova que não surgiu do nada e tem um talento especial para transmitir uma plácida tristeza. De Mark Ruffalo, ela ganha um ator com total domínio de seu corpo. Elemento que, nesta história em particular, vem muito a calhar para a proposta do roteiro. Do jovem Josh Hutcherson, a diretora consegue a sutileza das expressões curtas, quase invisíveis a olho nu, de um adolescente que não tem preocupações assim tão existenciais.

E com o casal Annette Bening e Julianne Moore, Cholodenko faz aquilo que qualquer diretor com um pouco de juízo na cabeça faria: abre a câmera e deixa rolar. No tom delas, na respiração delas. Bening, em particular, está espetacular como a mulher metódica, racional e, acima de tudo, carente em sua maquiada autosuficiência. Moore, que já é reconhecida por seu talento em nos fazer chorar, volta a mostrar que sua virtuose se expande também para o território da comédia. Uma pena que elas não tenham podido concorrer juntas.