Repleto de clichês, 'O Ritual' não convence

Baseado em "fatos reais" relatados pelo ítalo-americano Matt Baglio no livro homônimo, O Ritual (The Rite) é mais um filme sobre exorcismo, fé e redenção. O sempre sombrio Anthony Hopkins, logo nas primeiras cenas em que dá vida ao excêntrico padre Lucas, especialista em livrar pessoas de demônios que as possuem, diz que não deveríamos esperar "cabeças girando e sopa de ervilhas", em uma referência clara ao O Exorcista, de William Friekin. No entanto, é exatamente isso que o filme acaba por mostrar. E, a despeito da tirada de sarro do filme de 1973, a nova trama sobre possessão diabólica não chega nem aos pés do clássico longa.

Como protagonista, temos o pouco convincente Colin O'Donoghue, interpretando o seminarista Michael Kovak. Cético, ele pretende desistir da carreira eclesiástica, mas é persuadido por seu padre superior, Matthew (Toby Jones), a fazer um curso sobre exorcismo ministrado no Vaticano.

Um Michael cheio de desconfianças e dúvidas parte para Roma e entra em contato com a duvidosa arte de "despossuir" demônios. Nessa jornada em busca da fé, ele conhece o especialista padre Lucas, o mais renomado exorcista das redondezas, além da charmosa jornalista Angeline, vivida pela brasileira Alice Braga.

A sensação que fica é a de que o diretor, o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003, Mikael Håfström, tentou dar ao filme uma densidade psicológica - semelhante à de 1408 - mas não conseguiu. Repleto de clichês, com direito até a uma casa "mal assombrada" cheia de gatos pretos, sons de corvos e caminhadas macabras pelos corredores do Vaticano, o filme é mais do mesmo. Apesar de não ser um bem-sucedido projeto, ele até tem momentos de tensão, porém "peca" - com o perdão do trocadilho - por não focar nisso e se pretender um filme sério.

Os questionamentos colocados no início da trama pelo ceticismo de Michael - se as pessoas a serem exorcizadas estavam de fato possuídas ou se tinham problemas de ordem psiquiátrica - que poderiam deixar o filme interessante, no entanto, logo são descartados para dar espaço às obviedades. E mesmo as obviedades não são bem realizadas: não assusta, não dá medo e você vai dormir tranquilo a noite.

Ainda assim, temos Hopkins. O ator provou por que tem predileção por thrillers de terror. Quando lhe foi exigida uma certa dose de loucura, na cena clímax do longa, ela foi dada ao público com a excelência de sempre. Porém, o roteiro, assinado por Michael Petroni (As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada), não explorou o seu padre Lucas tão bem quanto poderia, fazendo transparecer um Hopkins apático durante todo o filme, com exceção desses 10 ou 15 minutos.

Apesar de tantos aspectos não tão positivos, o longa parece que vai ser um sucesso. Logo na estreia, as bilheterias norte-americanas registraram uma arrecadação de aproximadamente US$ 15 milhões, catapultando o filme ao primeiro lugar. Exorcismo vende. Mas nem sempre convence.