É preciso se curvar diante da majestade de 'O Discurso do Rei'

A marcação de cena está feita. O enquadramento é ajustado por alguém que tira a medida das imagens tal qual um alfaiate. Suspensa no tripé, firme e estável, a câmera aguarda seu chamado. A claquete finalmente estala e a partir deste momento vemos em tela grande atores deixarem de existir e personagens nascerem. É um momento que nos acostumamos a presenciar no cinema e por isso mesmo o tomamos por menos. Mas a transformação que vemos acontecer em O Discurso do Rei é digna de cadência e certa formalidade em sua apresentação. Porque no instante em que Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter assumem o controle da situação, assistimos a um filme cujo maior mérito é a abdicação: do status de ator e do status de cineasta.

A câmera está aberta para a interpretação e, sem movimentos bruscos ou edições ousadas, ela deixa que os personagens caminhem com suas próprias pernas. Tom Hooper interfere o mínimo possível e está aí sua maior virtude. O que nos leva a pensar que no filme que mais recebeu indicações ao Oscar este ano (12 nomeações) existem duas histórias paralelas que se desenvolvem sobre as mesmas premissas. Confiança e cumplicidade. Entre os personagens encenados e entre o diretor e seus atores.

Os elegantes movimentos invisíveis por trás da ação abrem o caminho para a história real de um herdeiro da coroa britânica cuja imperfeição mais privada é, por força do ofício, constantemente exposta em público. O homem que começa essa história como o Duque de York e termina como o Rei George VI (pai da Rainha Elizabeth II) tem voz, mas não consegue falar. Porém precisa e deve. Assim como tantos plebeus, ele é gago. E ao contrário de tantos plebeus, ele não pode gaguejar.

Seria fácil, curioso e raso resumir esse filme à história de alguém que luta contra sua gagueira e cujo maior desafio é falar com voz firme e tranquiila para confortar uma Nação pouco antes do primeiro disparo da Segunda Guerra Mundial. Mas a disfemia do personagem é somente um pano de fundo para um roteiro cujos pilares estão na confiança e cumplicidade acima citadas.

Apesar de expor um problema que nasce de uma questão coletiva - o governo falando com seus governados -, o filme é soberano mesmo porque mostra esse entrave de voz em sua esfera privada, íntima e fechada entre as quatro paredes que assistem à gradual relação que se constrói entre o herdeiro real e um falso médico cujas técnicas para distensão vocal são pouco ortodoxas.

O Discurso do Rei é, portanto, esse gigante buraco da fechadura pelo qual conseguimos observar as questões e dilemas mais íntimos de alguém que nasceu preterido, sendo não o primeiro, mas o segundo nome na linha de sucessão ao trono inglês. E assistimos a tudo isso a partir dos sutis e determinantes relances na expressão dos personagens e, claro, no tom e ritmo de suas vozes.

Colin Firth, predestinado a levar o Oscar de Melhor Ator este ano, se entrega física e psicologicamente ao seu personagem, criando um Duque de York totalmente legítimo no pavor que seus olhos demonstram diante de um microfone. Mas Firth se torna um ator ainda maior diante de suas contrapartes no filme. Helena Bonham Carter, no papel de Elizabeth, o faz parecer demasiadamente humano. Geoffrey Rush, como o terapeuta Lionel Logue, o faz gritar com raiva e fragilidade. Todos se completam em cena.

A frisar novamente que este é o maior mérito do diretor Tom Hooper. Sem pesar sua mão sobre o tom do filme, ele deixa que os atores conduzam a movimentação. Com uma fotografia clássica e poucos movimentos de câmera, o filme se engradece ainda mais quando coloca em diversos momentos os personagens de Firth e Rush frente a frente. Bastante reticente quanto às técnicas revolucionárias de curar sua gagueira, o Duque de York é levado à presença desse homem que, segundo sua mulher Elizabeth, pode dar um fim a esse problema de ordem internacional. O contato inicial é ríspido por parte do Duque e promissor por parte do terapeuta.

Eles trocam farpas, disputam inteligência, descobrem piadas, se rendem mutuamente. Sem brincadeiras de jograis. Somente a pedra lapidada de diálogos com força dramática e, claro, aquele cruel senso de humor britânico. Sim, O Discurso do Rei é um drama de fazer chorar, rir e, sobretudo, de se curvar diante de sua majestade.