A entrevista com os criadores de Bruno Aleixo

Ele tem uma aparência ambígua, que poderia lembrar tanto a de um cachorro vira-lata quanto a de um fofíssimo urso de pelúcia. Ficou famoso por deixar conselhos úteis no YouTube e anima um talk show na TV portuguesa em companhia de amigos estranhos: um bustos de napoleão, um anfíbio dançarino, e um homem das cavernas. Com seu indefectível sotaque luso, ensina, entre outras coisas, que “os homens que usam brinco são drogados”.  

Se você é conectado às novidades da internet, já deve ter ouvido falar de um tal de Bruno Aleixo – e provavelmente ficou um tanto perplexo por seu humor  lacônico e nonsense. Sensação em Portugal, onde ganhou um programa de TV, o personagem animado, criado e dublado pelos portugueses João Moreira e Pedro Santo, conquista também um séquito de fãs entre público brasileiro, que descobriu seus vídeos graças às facilidades da web.  

Em entrevista ao Jornal do Brasil, João Moreira, João Pombeiro e Pedro Santo, as cabeças pensantes por trás do programa, falam sobre o sucesso do personagem (leia a matéria principal na edição digital do Caderno B de 21 de outubro de 2010).

Como vocês veem o pequeno culto que o Bruno Aleixo vem recebendo no Brasil? 

- Se nos falassem nessa possibilidade antes, a hipótese iria soar muito, mesmo muito absurda. Vemos esse pequeno culto brasileiro em relação ao Aleixo com um misto de surpresa e orgulho. Não contávamos com isso, nada mesmo, até porque o programa nunca fora pensado para, de alguma forma, se internacionalizar. Quando essa internacionalização ocorre, ficámos surpreendidos, é claro. Ainda para mais, se aqui em Portugal o produto brasileiro está muito enraizado, a verdade é que nos parece evidente que a entrada da produção portuguesa no Brasil ainda é muito secundária. Ou seja, quando algum brasileiro nos fala do Aleixo ou descobrimos que havia máscaras do Aleixo no Carnaval, por exemplo, a gente vê mesmo isso com imensa surpresa, carregada de orgulho.

É verdade a mãe de João Moreira é brasileira? Qual é relação de vocês com o Brasil?

Sim, é verdade. Moreira vai falar agora em discurso directo: «A minha mãe é paulistana de ascendência portuguesa. Metade da família está lá. O meu avô não era padeiro mas montava padarias para padeiros. Era tipo um padrinho das padarias. Não era nada. Mas sim, montava padarias e restaurantes. Empresário, vá. A minha avó comercializava roupa casa-a-casa e eu, só para a chatear, digo que era camelô. Todos os anos vêm primos visitar a Europa e eu penso sempre que são os mesmos, mas depois, vou a ver, e são outros. São muitos. Nem eu sei quantos tenho. Só me lembro da cara de 3 mas sei que são uns 50. O meu 1º clube do coração é a Portuguesa. Dantes era o segundo, mas o União de Coimbra, o primeiro, acabou por dívidas ao fisco e o 2º subiu para primeiro. A seleção portuguesa tem um equipamento parecido com o da lusa, agora. Gosto mais assim. Nunca fui ao Brasil, mas vou em março próximo. Supostamente devia ir fazer contactos, mas vou gastar todo o dinheiro no jogo do bicho (metade aposto no peru, metade no mico; depois sai cobra e eu perco tudo).»

A nossa relação é boa. Nunca fomos aí, mas todos pretendemos ir. Moreira e Santo estão, actualmente, viciados numas rolhas com sabor de amendoim. Em contrapartida, Santo tem um sumo brasileiro de caju no frigorífico há mais de três meses, não consegue terminar aquilo. Moreira torce para a Portuguesa e sonha com o dia em que todos vamos ao Canindé ver uma partida e um penalty chutado pelo adversário da Lusa leve a bola até à bancada, mais precisamente até à cara de Pombeiro, que estará distraído. Pombeiro não sabe o que é um impedimento, por exemplo, mas, numa possível peladinha, revelar-se-á como um goleiro esforçado. Santo torce contra os times todos que não tenham ex-jogadores do Sporting, e diz que uma vez encontrou Luisinho, o zagueiro da selecção de 82 que jogou em Portugal, e lhe fez uma caneta com um fruto que vai mudando de cada vez que ele conta a história.

Qual a importância da internet para o surgimento criações que saiam dos padrões televisivos tradicionais, como é o caso do programa do Bruno Aleixo? A web expandiu os horizontes?

- A Internet é o território por excelência para muita da criação experimental actual. Também o foi para nós. Experimentámos o Aleixo, na altura ainda apenas com os pequenos vídeos dos Conselhos e, nesse pequeno burburinho que se gerou, a coisa chegou a um responsável por um canal de televisão por cabo aqui de Portugal. E eles nos pediram um programa inteiro. A Internet permite isso. Não é como a televisão ou a rádio. Ninguém fica refém do que um director, uma única pessoa, acha bom ou mau. A criação está aí, disponível para todos verem e, no maior processo democrático, as pessoas decidem se querem ver mais daquilo ou não. A imposição dos padrões televisivos tradicionais ainda existe, daí que, também por isso, tenhamos optado por fazer um programa que assenta num formato televisivo clássico: o talk-show. Mas a linguagem, o tom e tudo isso, foram experimentados e afinados primeiro na Internet, que nos permite a tal liberdade criativa, sem pressões, sem necessidade de agradar a muitos, a alguns ou aos que decidem.

Bruno Aleixo e seus amigos formam um micro-universo muito peculiar, que reflete diferentes aspectos do nosso imaginário, misturando num mesmo caldeirão fetiches enciclopédicos, referências à mídia, à fenômenos culturais da sociedade, etc... De onde vem as ideias para criar personagens tão estranhos, como o Renato, o Busto, o Bussaco...?

- Olha, na verdade, é sempre complicado definir a origem das ideias. São sempre uma amálgama de pequenas coisas que, no final, se reflectem num todo. Todos temos vivências relativamente comuns, da zona centro do país, com um vocabulário muito próprio e, também, com referências culturais algo singulares. A nossa geração terá sido a última a brincar na rua e a primeira a experimentar um computador. E isso dá um conjunto de referências que, de uma forma ou de outra, acabam por se reflectir nas nossas criações. Crescemos com o pinhal ali ao lado, com todo esse universo de teor mais rural, mas, ao mesmo tempo, a cultura pop televisiva e dos videojogos nos acompanhou de forma indelével. Na criação das personagens, a ideia sempre foi que, em torno do Aleixo, existisse um universo de amigos bem particular. E eles foram surgindo, outros ficaram na gaveta, mas, em todas elas, a existência física surgiu primeiro. Só depois, como na vida, se foram afinando as vozes, as características de personalidade, etc. 

O programa tem um senso de humor fácil de reconhecer: sutil e seco, flertando com o nonsense. Em matéria de humor, quais são as suas referências?

- A única, e principal, referência de Moreira é o seriado brasileiro "Dona Santa". Já Santo, gosta de desenhos animados amarelos, nomeadamente o "Duckman" e "Os Simpsons". Pombeiro  gosta de ver vídeos d' "Os Marretas" no Youtube, especialmente os das cantigas.

Confira abaixo um episódio de Bruno Aleixo, sensação em Portugal.