Peruano Mario Vargas Llosa é o vencedor do Nobel de Literatura

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 74 anos, foi anunciado nesta quinta-feira como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2010.

A Academia Sueca justificou o prêmio a Vargas Llosa pala "cartografia das estruturas do poder e suas imagens vigorosas da resistência, revolta e derrota individual".

Nascido na cidade de Arequipa, no sul do Peru, em 28 de março de 1936 em uma família de classe média, foi educado pela mãe e pelos avós maternos em Cochabamba, na Bolívia, e depois em seu país natal. Depois de estudar na Academia Militar de Lima, se formou em Letras e trabalhou como jornalista.

Três anos depois de ser derrotado nas eleições presidenciais peruanas de 1990 por Alberto Fujimori, obteve a nacionalidade espanhola, mas sem abrir mão da nacionalidade original.

"Sequer pensava que estava entre os candidatos", disse o escritor em Nova York à rádio colombiana RCN, na primeira reação após receber a notícia do prêmio.

"Acredito que é um reconhecimento à literatura latinoamericana e à literatura em língua espanhola, e isto sim deve alegrar a todos", acrescentou.

Romancista, mas também poeta, autor de ensaios e jornalista, Vargas Llosa, que aparecia há muitos anos entre os candidatos ao Nobel de Literatura, se vê premiado 47 anos depois da publicação de "A cidade e os cachorros", livro com o qual obteve fama mundial.

"É um escritor que desenvolveu a arte de narrar de uma forma fantástica", comentou o secretário da Academia Sueca, Peter Englund, depois de anunciar o prêmio.

"Podemos ver em sua produção que é um homem apaixonado. E teve uma reação de homem apaixonado, estava muito feliz e muito emocionado", completou Englund, que acabara de dar a notícia ao escritor por telefone.

"No momento ele está em Nova York, onde eram 6h45 quando liguei e já estava acordado. Levantou muito cedo, às cinco da manhã, para preparar uma aula. Ele é professor na Universidade de Princeton", contou Englund.

Em entrevista à emissora peruana RPP, Vargas Llosa deu sua versão sobre como tomou conhecimento do prêmio.

"Estava acordado, estava trabalhando desde as cinco da manhã e tocou o telefone. Patricia (esposa do escritor) apareceu e disse 'é um senhor falando em inglês'".

"O senhor era o secretário-geral da academia", disse.

"Pensei que era um trote. Alberto Moravia (escritor italiano) foi vítima deste trote perverso. Um inimigo ligou e ele não havia recebido o prêmio", recordou.

"Tenho vontade de caminhar no Central Park", afirmou Vargas Llosa, antes de considerar que o prêmio é uma "boa maneira de começar o dia".

Depois, falando à televisão pública espanhola, Vargas Llosa agradeceu à Espanha, a quem, segundo ele, deve grande parte do prêmio.

"Grande parte deste prêmio eu devo à Espanha. Na Espanha foi onde eu me tornei um escritor conhecido, assim gostaria nesta circunstância de agradecer muito à Espanha por tudo o que lhe devo como escritor", declarou por telefone ao canal TVE1.

O presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, enviou rapidamente seus votos de felicitação.

"Mario Vargas Llosa é o grande escritor dos frutos de sua imaginação e também de sua própria experiência vital, à qual sempre entregou sua inteligência e a riqueza de seu coração para traçar, como enfatizado pela academia sueca, a cartografia das estruturas do poder e suas incisivas imagens da resistência individual, a revolta e a derrota", elogiou.

Com livros traduzidos para mais de 30 idiomas, Vargas Llosa já havia conquistado os prêmios Cervantes, Príncipe das Astúrias das Letras, Biblioteca Breve, o da Crítica Espanhola, o Prêmio Nacional de Romance do Peru e o Rómulo Gallegos.

Na política, passou de um apoio entusiasmado ao repúdio à revolução cubana. Também defendeu posições mais conservadoras nos anos 80, assim como quando foi candidato à presidência do Peru em 1990.

Suas últimas críticas no plano internacional se dirigiram ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, a quem define como um "caudilho messiânico".

A notícia do Nobel fez a agente do escritor comemorar com champanhe no estande da editora Alfaguara na Feira do Livro de Frankfurt.

"É uma alegria impressionante. Comecei a chorar e derreti que nem gelatina", declarou Gloria Gutiérrez, representante da célebre agente literária espanhola Carmen Balcells.

A própria Balcells, falando à TVE1 espanhola, declarou que Vargas Llosa merecia o Prêmio Nobel há tempos/

Balcells sempre foi a agente literária de Vargas Llosa e também de vários integrantes do chamado "boom" de escritores latinoamericanos, alguns dos quais, como o peruano, se instalaram nos anos 70 e 80 em Barcelona, onde ela mantém sua agência há 50 anos.

O presidente do Peru, Alan García, afirmou, por sua vez, que o Nobel para Vargas Llosa representa "uma honra e um grande dia" para o país, assim como um reconhecimento à sua constância de criação.

"Vargas Llosa é um extraordinário criador da linguagem, um grande romancista, um grande dramaturgo que tem incursionado em todos os cantos da criação", afirmou García.

A escritora brasileira, Nélida Piñon, a quem Vargas Llosa dedicou seu romance "A guerra do fim do mundo" (1981), afirmou que o Nobel marca o apogeu de uma carreira impecável.

"É um momento de festa para a América", destacou a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras em cem anos (em 1996 e 1997).

"Não é apenas um escritor excepcional, mas uma das melhores consciências da América Latina", afirmou a amiga pessoal do premiado.

O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, também expressou suas felicitações a quem considera "uma das grandes figuras da literatura universal".

"Ao premiar a obra e a pessoa de Mario Vargas Llosa, o júri Nobel reconheceu não apenas uma obra e uma força de criação fora do comum, como também um compromisso constante pelas liberdades e a democracia na América Latina e no mundo", afirmou Kouchner em um comunicado.