Talento de Binoche não sustenta roteiro de 'Cópia Fiel'

A arte não está no objeto, está na perspectiva do sujeito que olha o objeto. É, portanto, o olhar e não a obra em si a expressão máxima da arte. Essa é a ideia maior por trás de toda a verborragia de Cópia Fiel, novo trabalho do iraniano Abbas Kiarostami que, quando vai assinar pelo título, não o faz como "diretor", mas como autor da mise en scène do filme. A expressão em francês dá conta de todo balé que se cria para a movimentação em cena, a marcação dos atores. Levando-se em conta que praticamente todo o percurso da câmera sempre parte e volta para a atriz Juliette Binoche, vista aqui quase sempre em plano fechado e closes, fica a impressão de que o olhar do espectador-sujeito dificilmente consegue desviar seu foco do objeto-atriz e criar um entendimento maior sobre aquela personagem fictícia. A personagem parece se encerrar somente o talento de Binoche e o filme perde bastante com isso. A francesa, que este ano levou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, está como (quase) sempre impecável no papel de uma mulher cujos medos estão à flor da pele, medo de não ser entendida e, mais latente, medo de não ser amada. A mesma impecabilidade não se pode aplicar a seu parceiro em cena, o ator William Shimell. No papel do escritor do livro Copie Conforme (título original do filme), ele demonstra um desconforto com seu personagem, intercalando o olhar no horizonte com frases coléricas não muito convincentes. Levando-se em conta o fato de ele estar sempre contracenando com Binoche, a interpretação fora do tom fica ainda mais evidente. Os dois aparentemente se encontram pela primeira vez numa apresentação do livro que o escritor vai fazer na Itália. Aparentemente porque a ideia de eles são mero desconhecidos vai se apagando a medida em que eles passam a conversar e o que vemos então é possivelmente a mais longa e ininterrupta DR (discussão de relacionamento) da história do cinema. O livro em questão trabalha com o conceito da cópia na arte e pondera sobre aquilo que entendemos como uma obra original. Disso surge a noção de que a verdade dentro dos relacionamentos amorosos, assim como a originalidade desses relacionamentos, é sempre relativa. Esse campo de teorias é vastamente explorado pelos longos diálogos do filme, boa parte deles filmados em plano contínuo, ou seja, sem corte de imagens, com a câmera sempre acompanhando a já citada mise en scène dos personagens. A câmera, vale frisar, nunca se distancia muito de seus protagonistas e é muitas vezes subjetiva, representando os olhos dos personagens. O roteiro do filme é recheado dessas imagens fechadas e só se desvia delas quando para mostrar a paisagem da Toscana, onde tudo se passa. Esse efeito gera uma sensação entediante de que os personagens estão sempre observando seu próprio reflexo e jogando frases inteligentes ao vento. Kiarostami sempre foi exímio em analisar sentimentos crus do ser humano, mas fica claro que, em questão de debate entre casais, a verborragia de câmera parada do sueco Igmar Begrman já deu conta do recado.