'Essential Killing' reflete sobre esgotamento do homem

Rio - A identidade do personagem principal desse filme é seu corpo. E à medida que acompanhamos ele se exaurir e definhar a dor de não mais se sustentar, entendemos que a nova obra do diretor polonês Jerzy Skolimowski é centrada na ideia de um homem que enfrenta uma tortura constante de desaparecer para ele mesmo. Essential Killing, filme que rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza para Vincent Gallo sem que ele falasse uma só palavra durante toda a história, é uma obra cujo verbo se articula nos ossos e na carne. E Skolimowski quer mostrar que há muito a se dizer com a anatomia da sobrevivência.

O roteiro nos leva ao protagonista da mesma forma como ele se sente durante todo o tempo de projeção do filme: encurralado. No cenário desértico e cheio de cavernas do Afeganistão, ele termina sendo capturado após explodir um grupo de soldados americanos naquilo, que, aparentemente, é uma tentativa de se defender. Ou mesmo apenas de atacar. Não importa.

Pois não sabemos muito sobre o passado desse homem e, com alguns poucos flashes que nos dão pistas sobre seus valores e amores, tentamos encaixar em vão o quebra-cabeças sobre a índole do personagem. Em vão porque, propositalmente, o filme não deixa espaços para que o espectador crie juízo de valor sobre o homem que ali se vê. Não interessa se ele é fundamentalmente bom ou mau. E sempre que tentamos, como que induzidos pela nossa consciência ocidental de imbuir papéis de vilões ou mocinhos às pessoas, Essential Killing nos chama atenção para o fato de que esses valores facilmente se diluem quando o que está em questão é a natureza da luta interna entre um homem diante da morte iminente.

A trama começa na já citada captura do personagem por soldados americanos no deserto do Afeganistão. Por alguns momentos, escutamos o que ele escuta (zumbidos de bombas ressoando em seus ouvidos), vemos o que ele vê (imagens desfocadas de militares gritando palavras quase mudas) e, ao longo do filme, começamos a sentir o que ele sente: a exaustão. Levado para uma instalação do exército, ele tem seu cabelo cortado e esse será a primeira interferência que seu corpo sente. A partir daí começam as sessões de tortura, para logo em seguida acompanharmos a trajetória dele sendo levado de avião, ao lado de outros prisioneiros, para um lugar desconhecido. Quando todos estão sendo transportados em um comboio de carros, um imprevisto acidente acontece e nosso protagonista consegue fugir.

Do lado de fora do capuz, há um outro deserto pela frente. Mas no lugar da areia e do sol quente, o que se vê é um horizonte de neve em que o branco do chão cola com o branco do céu num infinito de vazio intercalado apenas por árvores e uma vegetação esparsa. E assim como não sabemos desenhar o contorno moral do personagem, não conseguimos identificar os limites de território onde ele se encontra. Esse sentimento de estranheza revela bastante sobre uma possível intenção do diretor em criar uma obra sobre essa nossa constante sensação de que não sabemos para onde apontar a culpa.

Vincent Gallo, por sua vez, é um corpo a serviço do personagem. Sua peregrinação para resistir ao frio e à fome é dilatada nas veias do ator. O esgotamento físico se mistura a um esgotamento psicológico e fica claro que aquela fuga constante, uma fuga que a determinado momento já não sabemos mais de que, é um caminho para o esvaziamento do homem.

Essential Killing é, nesse aspecto, uma interessante discussão sobre até que ponto nós perdemos e diluímos nossas identidades quando, na sociedade contemporânea do medo, fugimos de não sei o que para não sei pra onde.