Wagner Tiso critica postura imediatista das gravadoras

Bernardo Costa, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Músico que transita com facilidade pelo erudito e o popular, influências que deram tom singular a sua obra, o pianista, compositor e arranjador Wagner Tiso assume mais um desafio em sua trajetória: preparar em sete dias jovens músicos inscritos na Orquestra Sinfônica da Mostra Internacional de Música em Olinda (Mimo), que homenageará o compositor em sua sétima edição, para apresentarem a peça Cenas brasileiras, de sua autoria, na qual reveste com caráter sinfônico diversas vertentes de ritmos brasileiros.

Início no acordeom

Quero prepará-los para uma apresentação bonita. Trabalhar esses garotos para que se tornem músicos de qualidade conta Wagner Tiso. Fiquei sabendo que dois meninos que estão inscritos passaram nos testes da Orquestra de São Petersburgo.

Na Mimo, que contará com apresentações do pianista McCoy Tyner e do guitarrista Mike Stern, entre outros, Tiso se apresentará com diferentes formações, em duos, trios e quartetos, com convidados como Victor Biglione, Marcio Malard e Brasil Ensemble. O evento, que começa dia primeiro de setembro, também conta com projeções de filmes musicais, como Uma noite em 67, Nasci para bailar, João do Vale - Muita gente desconhece e Remo Usai - Um músico para o cinema.

Wagner Tiso se diz oriundo da música popular brasileira, vertente na qual obteve sucesso e prestígio internacional, sem deixar de flertar com o clássico, influência que carrega desde a infância passada em Três Pontas, no interior de Minas Gerais, principalmente em relação aos compositores eruditos do leste europeu.

Nomes como Rimski-Kórsakov moldaram minhas composições, assim como a música cigana. Minha família é oriunda do leste europeu. Eram nômades, mas ouviam muito a música daquela região.

Os estudos de piano também vieram na infância, mas, como músico profissional, Wagner Tiso iniciou a carreira no acordeom, em bailes do sul do Minas, na década de 50.

Por coincidência, o Milton Nascimento foi morar, com três meses de idade, na mesma rua que eu, em Três Pontas. Nos conhecemos e ele se tornou nosso crooner nesses bailes. Na época, as casas não tinham piano. Comecei no acordeom, mas quando vim para o Rio já passei a me apresentar ao piano.

Tiso chegou ao Rio em meados da década de 60. Gravou disco como integrante do grupo Sambacana e acompanhou o baterista Edison Machado e o clarinetista Paulo Moura, que se tornou seu professor e o incentivou a escrever os primeiros arranjos para orquestra.

Ele descobriu em mim um orquestrador nato, o que soava para mim como algo longínquo. Paulo me mostrou como distribuir os instrumentos na pauta, como fazer o transporte de tons, apostando na minha capacidade. Eu tinha 18 anos quando ele me indicou para fazer arranjos para a apresentação da Maysa que inaugurou o palco de shows do Canecão. Depois disso, tomei gosto pela orquestração.

Contratado pela Odeon, Tiso foi muito requisitado nos anos 70.

Assinei arranjos para 80% dos artistas da gravadora. Me tornei o orquestrador da onda nessa época.

Liberdade para experimentar

Analisando a liberdade que o artista tinha na época para trabalhar um disco, Wagner Tiso se queixa do imediatismo das gravadoras de hoje, mais interessadas nas vendas do que na qualidade musical de um disco.

Antigamente tínhamos liberdade para experimentar, era a época disso. Hoje o mercado do disco quer vender, sem apostar nos artistas. O Milton levou gravou quatro discos na Odeon até obter sucesso, que veio após a gravação do primeiro elepê do Clube da Esquina. O mesmo ocorreu com Caetano Veloso na Phillips. As gravadoras acreditavam no potencial do artista. Hoje, se alguém não vende determinado número de cópias, as gravadoras se desfazem dele e pagam logo outro que gere renda.