Texto do emblemático longa de Guy Debord ganha publicação em livro

Maria Clara Carneiro, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O pequeno livro, de capa dura, cuidadosamente vermelha, abriga o texto potente de dois dos filmes revolucionários de Guy Debord, In girum imus nocte et consumimur igni e Crítica da separação. Traduzidos pela primeira vez no Brasil, o texto forte de Debord é acompanhado de notas do próprio autor, assim como as do pesquisador e tradutor americano de Debord, Ken Knabb, que mantém site devidamente referenciado sobre a obra do francês (além de textos e quadrinhos sobre a Internacional Situacionista, a qual teve Guy Debord como um de seus fundadores).

In girum imus nocte é um metafilme ou antifilme, como descreve Debord que trata o cinema e a televisão como principais componentes da sociedade do espetáculo definida e criticada por Debord em seu célebre livro. O palíndromo do título, uma advinha medieval, poderia ser traduzido por algo como Giramos pela noite / e fomos consumidos pelo fogo. A resposta para a advinha seria mariposas , e Debord as associa a essa sociedade que se deixa devorar pelas luzes da ribalta. O presente livro, em edição bilíngue, apresenta a narrativa/roteiro completa do livro, com referências para as imagens exibidas no filme.

Debord não apresenta um roteiro fácil muito menos esboça uma teoria ( ... não é dito nada além de verdades sobre imagens que são, todas, insignificantes e falsas. Filme que despreza esta poeira de imagens que o compõe ). Não haveria muito menos, ali, uma teoria da revolução: As teorias servem apenas para morrer na guerra do tempo .

Mais que teorizar sobre essas próprias imagens e o tempo que compõem seus filmes, Debord apresenta referências sobre seu próprio percurso de vida, retoma referências de suas obras passadas e fala da Paris de antes; aborda suas pretensões. Produzido mais de dez anos após sua Sociedade do Espetáculo e ainda 17 anos após Crítica da separação, que também compõe esse livro, In Girum imus nocte (1978) oferece um balanço do próprio autor sobre seu trabalho. É, contudo, um texto duro contra os críticos e contra toda a sociedade-mariposa de então. O juízo jamais virá , ele sentenciava. Morto em 1994, Debord teve talvez a chance de fugir do auge de nossa era pós-fotográfica, dos espetáculos automaticamente disponibilizados para milhões de usuários das redes, viciados em imagens. Por outro lado, os outros meios para se fazer a luta, pelo qual ele clama ao final de sua Crítica da separação talvez já tenham chegado. Novos problemas já se colocam, também. Acostuma-se, é o que parece .

Mestre em literatura francesa pela UFRJ