Reunião de contos de Raymond Carver oferece painel de sua obra

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Demorou, mas aconteceu. E da melhor maneira possível: a obra de Raymond Carver, um dos mais influentes escritores americanos da segunda metade do século 20, ganha finalmente uma edição abrangente no país. Reunidos em um único volume e organizados em ordem cronológica, os 68 contos lançados pela Companhia das Letras compensam o vácuo editorial brasileiro, preenchido até então por apenas três publicações não tão representativas do trabalho do escritor (Short cuts, com nove contos que inspiraram o filme homônimo de Robert Altman; Fique quieta, por favor, a sua primeira coletânea, de 1976; e Iniciantes, obra póstuma que revelava a versão sem cortes de seu segundo livro, O que falamos quando falamos de amor, de 1981).

Era, sem dúvida, muito pouco para aquele que era conhecido como o principal renovador do interesse pela short story nos Estados Unidos ainda mais se levarmos em conta que era preciso recorrer a edições estrangeiras para poder apreciar aquela que é sua obra mais madura, a coletânea Cathedral, de 1983, a segunda mais expansiva do autor, que trazia menos cortes e interferências de seu fiel colaborador, o editor Gordon Lish.

Carver era visto como um expoente do realismo sujo americano, com seu registro econômico do cotidiano nada glorioso da classe operária. A princípio não se encontra nada de muito original no autor, que segue a clara herança do conto de atmosfera de Tchekhov, retomada pelos contos abstratos de Hemingway. São narrativas enxutas, que, como um iceberg, escondem quase tudo sob sua superfície, sem trazer, necessariamente, um desfecho definido. Trabalhando com a premissa do não-dito (o understatement hemingwayiano) deixa um inevitável sentimento de perplexidade.

A diferença é que, ao transpor tal estilo para a realidade dos underdogs (a América red neck), falando sobre a vida em meio a dívidas, desemprego, desmoronamento conjugal e familiar, Carver soube captar como poucos a falta de orientação de seus personagens, incapazes de compreender o que acontece ao seu redor.

O estilo de Carver é inconfundível. A minuciosa descrição de gestos e movimentos supera de longe a descrição de ambientes. A precisão do discurso é levada ao paroxismo, criando um paradoxo: quanto mais objetiva a narrativa, mais ressonante e vaga ela se torna para o leitor. E se o autor buscava o mesmo coração generoso de Tchekhov; qualquer pitada de sentimentalismo, contudo, era cortada por um tom patético, tragicômico, que põe a nós, seres humanos, em nosso devido lugar como bem diz o título de um volume de ensaios do autor, sem heroísmo, por favor .

A recepção modesta que o Carver teve até hoje no Brasil certamente não tem a ver com uma hipotética rejeição do leitor brasileiro ao conto realista avalia o escritor Rodrigo Lacreda, que ajudou a colocar em ordem cronológica os 68 contos do volume, e que também participou da antologia Dí algo para romper este silencio, feita em homenagem a Carver. A literatura realista é uma vertente fortíssima tanto na produção literária brasileira quanto no gosto do nosso público. Eu acho que o Carver não aconteceu tanto no Brasil porque foi pouco publicado enquanto vivo, e mesmo depois de morto e consagrado. Ou seja, acho que não foi propriamente um problema de recepção, mas um descompasso editorial.

O lançamento dos 68 contos dá ao leitor brasileiro um panorama inédito da evolução de Carver, dos raros e ainda brutos primeiros contos nos quais nota-se uma certa falta de domínio na dosagem dos adjetivos às últimas narrativas, escritas nos anos 80 e que permaneceram inéditas até 2001.

Do retalhado ao expansivo

Outro interesse da coletânea é a possibilidade de comparação das diferentes edições, já que alguns contos se repetem em diferentes versões, como o magnífico Tanta água perto de casa. Um casamento vira ao avesso depois que a mulher, que narra a história, descobre que o marido encontrara o cadáver de uma jovem durante uma pescaria no rio. Para não perd