'Par Perfeito' funciona nas piadas bobas de Ashton Kutcher

Carol Almeida, Portal Terra

S O PAULO - Da até para imaginar o antológico momento: portas fechadas, papéis na mesa, alguns homens engravatados, outros vestindo camisas de gosto duvidoso. Os engravatados são executivos de Hollywood, os de tecidos estampados são os roteiristas. E o que os primeiros dizem aos segundos é: "Pensem em Sr. e a Sra. Smith. Pensaram? Agora dupliquem, tripliquem, espalhem essa formula em um novo gênero do cinema e me tragam de volta vários outros filmes com muito barulho dolby surround, espiões secretos, casais apaixonados e, acima de tudo, piadas prontas sobre discussões de relacionamento."

E eis que então chegamos a 2010, cinco anos depois de Sr. e Sra. Smith. No mesmo ano Hollywood lança dois títulos exatamente com a mesma premissa: agente secreto bonitão se apaixona por loira solteirona e carente, o que inevitavelmente nos leva a cenas em que os diálogos sobre o futuro do casal são entrecortados pelo barulho de metralhadoras e pistolas automáticas. O primeiro desses longas foi Encontro Explosivo e o segundo chega esta semana aos cinemas com a estreia de Par Perfeito.

Sim, com esse titulo diabético, a nova comédia de ação romântica nos apresenta mais uma atualização de uma receita que coloca na mesma panela dois ingredientes igualmente explosivos: perseguições armadas e briga de casal. E eis que temos novamente uma dinâmica de carros em alta velocidade com diálogos de sitcom. Em Par Perfeito, isso funciona mais ou menos bem.

Digamos que, numa corrida por uma fórmula que diverte sem pretensão e não tira o espectador por menos, este filme consegue engatar uma terceira marcha num câmbio de cinco. Sim, porque a sexta marcha dos esportivos luxuosos é reservada apenas aos filmes com estrelas de porte maior, tais como Tom Cruise e Cameron Diaz no já citado Encontro Explosivo, filme este que errou justamente quando tentou acelerar uma química que não funcionou.

Em Par Perfeito, apesar de uma velocidade mais baixa no arsenal de explosões, a química do casal central funciona um pouco melhor. A espécime masculina é um agente secreto treinado para matar e a espécime feminina é a filhinha de papai com medo de ficar para titia. Ambos são interpretados por atores que devem ser acometidos constantemente por uma sensação de déjà vu.

Ashton Kutcher é mais uma vez o gostosinho de gordura corporal praticamente nula que não vai perder a oportunidade de exibir suas horas de academia em algum momento (ou momentos) descamisado do filme. Katherine Heigl volta aqui em mais uma versão de um personagem familiar em sua carreira, tanto no cinema quanto na TV: a da mulher solteira que passou dos 30 e tenta evangelizar suas amigas com um discurso sobre os benefícios da autosuficiência emocional quando, na verdade, ela dorme e acorda ansiosa para mudar seus status no Facebook.

Com essas duas cartas meio que marcadas em mão, o filme nos leva para uma trama de começo, meio e fim previstos, mas nem por isso menos divertidos. Par Perfeito é uma despretensiosa Sessão da Tarde que funciona porque, embora esteja longe de ser algum James Bond, Ashton Kutcher carrega o charme do homem-fetiche meio bobão (herança de seu personagem Kelso, na série That '70s Show).

A história te leva por caminhos que você já conhece: os dois se encontram em algum cenário romântico da Europa (neste caso o balneário de Nice, na França), se apaixonam à primeira vista e voltam felizes e saltitantes ao seu país de origem. Porém, entretanto, contudo e todavia, ele carrega um segredo que pode mudar o curso de seu relacionamento. Qualquer novela das oito conhece essa sequência de eventos.

O segredo em questão, naturalmente, é que ele é um agente secreto. Ao se apaixonar por Jennifer (Heigl), Spencer (Kutcher) decide abdicar dos serviços para os quais foi treinado e tenta dar partida à tão sonhada vidinha comum, sem grandes imprevistos atrás da porta. O fato é que, uma vez espião, sempre espião. E seu passado vai novamente apertar a campainha quando ele menos esperar.

O roteiro ajuda com algumas boa