'Lope', do brasileiro Andrucha Waddington, terá prova de fogo

Orlando Margarido, Portal Terra

VENEZA - Único brasileiro a constar da seleção oficial de longas-metragens da 67ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, o carioca Andrucha Waddington aguarda uma prova talvez mais determinante antes de apresentar seu Lope no evento italiano. No dia 1º de setembro, data também da abertura do concurso veneziano, o filme tem première agendada em Madri, num grande e antigo cinema de rua, e no dia seguinte estreia em toda Espanha com 315 cópias. "Faço filmes para o público e acho que é maior a expectativa numa abertura como essa do que num festival", diz o diretor ao Terra.

A apreensão se explica. Lope é uma co-produção entre Brasil e Espanha sobre a vida do poeta e dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega (1562-1635), um dos nomes simbólicos do chamado Século de Ouro do país, portanto uma personalidade da casa. Andrucha reconhece o risco de um estrangeiro abordar personagens reverenciados em seu território de origem, mas se diz tranqüilo.

"O filme tem um apelo universal e contemporâneo; é uma história de amor, sobre um jovem em busca de seu lugar no mundo". Ele acredita que com a estréia poderá haver uma discussão sobre o fato de um brasileiro filmar um personagem espanhol histórico, mas que até agora recebeu visões positivas. "Um jornalista correspondente americano que estuda literatura espanhola me disse haver fidelidade no filme e que se pode até sentir o mau cheiro da Madri da época."

Foi o contorno pessoal, mais do que a vocação literária de Vega, que interessou ao diretor quando o roteirista espanhol Jordi Gasull apresentou a ele um texto prévio em 2005. Havia assistido a Casa de Areia no Festival de Berlim, o longa anterior de Andrucha, que também assinou Gêmeas e Eu Tu Eles. "Creio que antes de tudo ele queria alguém com visão de fora, distante do mito na Espanha, para que visse o personagem com outros olhos; e eu conhecia muito pouco do Vega".

Boa parte dos quatro anos de produção o diretor dedicou a conhecer no original um tanto da imensa obra do biografado, responsável por uma produção no período barroco que atinge o milhar, entre mais de mil peças, 400 textos cômicos e incontáveis poemas. "Ele foi um dos primeiros autores a unir comédia e drama na mesma peça, inspirando inclusive Shakespeare".

Mas Vega também ficou conhecido como um conquistador de mulheres inveterado. A faceta estará representada no filme num triângulo amoroso vivido entre o protagonista e as jovens Isabel (Leonor Watling) e Elena (Pilar López de Ayala). O protagonista é interpretado pelo argentino Alberto Ammann, ator ainda desconhecido quando cooptado para o elenco, mas que acaba de vencer o Goya, o Oscar espanhol, pela atuação em Celda 211. "Queriamos alguém novo, fresco, e ele foi indicado na última hora, um talento maravilhoso".

O elenco conta ainda com dois brasileiros, Selton Mello, que interpreta um marquês português, e Sonia Braga, a mãe de Vega. Ambos foram convidados pelo próprio Andrucha, também produtor da fita pela Conspiração Filmes, coletivo carioca do qual é um dos sócios. Pela Espanha, as produtoras são a Antena 3 e a Ikiru Films, além da El Toro Pictures. Apesar da participação da casa, as filmagens de exteriores aconteceram em Marrocos, na cidade de Essaouira, que teve colonização portuguesa.

Na seleção oficial, mas fora da competição, o filme será exibido em Veneza dia 10 de setembro e já está escalado em seguida para o Festival de Toronto, também fora de concurso. "Prefiro assim; a participação deixa de ser um jogo de futebol e se torna celebração do cinema", garante o diretor.