Com drama rela perturbador, cineasta alerta sobre racismo

Portal Terra

DA REDAÇÃO - Na primeira década do século 18, uma mulher negra do clã sul-africano Khoikhoi, povo que foi denominado de modo ofensivo por estrangeiros como "hottentote", era apresentada num teatro popular de Londres como um exótico exemplar de selvagem. Dentro de uma jaula, vestida apenas por uma fina camada de roupa e adereços, rosnava para o público, dançava, e deixava-se tocar por mãos interessadas em comprovar a veracidade de seu corpo largo e grande. Dessa forma, o responsável pelo show, um empresário inescrupuloso, ganhava dinheiro a custas da jovem de 25 anos, cuja origem de seu povo também lhe legava uma característica física particular: um órgão sexual muito maior que o comum. Denunciado por exploração desumana, o empresário foi obrigado a fugir para Paris e ali seguiria com um sócio a carreira, fazendo de sua atração um programa divertido nos salões da burguesia. Mas a essa altura, Saartjie Baartman, o nome da jovem também conhecida como Sara, já definhava pela bebida e por outros problemas de saúde devido ao trabalho como prostituta, morrendo ali pouco tempo depois. Seu cadáver, então, foi estudado e dissecado por médicos anatomistas franceses, que a apresentaram como um tipo similar aos macacos.

Um modelo em tamanho natural da Sara real pode ser visto no Museu do Homem, em Paris. Mas não foi apenas essa representação que impressionou o diretor Abdellatif Kechiche, tunisiano radicado na França, para levar a história às telas em Venus Noire (Venus negra, na tradução direta), drama inquietante exibido nesta terça-feira (7) na competição. Como o filme explica na sequência de arquivo nos créditos finais, em 2000 a África do Sul pediu a França os despojos de Sara, e o retorno foi celebrado como um evento político e com festa local. "Li isso nos jornais na época e fiquei perturbado pela história", disse o cineasta na coletiva de imprensa na quarta-feira. "Para mim estava ali, num drama pessoal do passado, um retrato do que acontece agora no presente em alguns países em relação aos povos diversos que ali moram, seus imigrantes; há uma intolerância pelo diferente, e o racismo só está aumentando". Ele disse ainda ter se envolvido numa espécie de dever moral em recuperar essa história. "Estou muito preocupado com o que alguns políticos, especialmente na França, tem dito sobre o assunto de imigração, sobre expulsão e assuntos afins".

O filme tem duas horas e quarenta minutos e vale sua exigência pelo realismo com que Kechiche trata o tema. Mas não só a longa duração como as cenas repetitivas, detalhadas e por vezes excessivas do que se pode chamar de tortura de Sara, quando apresentada no show, foram questionadas. A idéia é que o diretor poderia estar ocorrendo no mesmo erro de expor demais a personagem (em atuação poderosa da estreante Yahima Torrès), num processo mesmo voyeuristico. Kechiche, que há dois anos venceu aqui o Prêmio do Júri por O Segredo do Grão, justificou que queria passar o espectador a dor, o sofrimento e a exaustão que Sara suportou durante sua trajetória na Europa. "Era preciso que se olhasse muito para aquele corpo e o que ele suporta para entender o conflito dessa mulher com o chamado mundo civilizado". Um jornalista chegou a citar Hitchcock, que dizia que o tempo de um filme deve ser de acordo com a bexiga do espectador. "Eu valorizo e confio mais na mente do público do que sua bexiga", responde Kechiche.

O cineasta disse não acreditar que o filme emita algum juízo sobre os acontecimentos e os envolvidos nele, especialmente os proprietários de Sara e os médicos franceses. "Mas acho que esses especialistas foram os que mais lhe fizeram mal, na medida em que não respeitaram sua vontade em vida de não ter seu órgão sexual examinado; quando o fizeram após sua morte, foi como um estupro, um ato muito violento; o importante é que o filme se impõe como a reflexão de uma responsabilidade coletiva".