Amir Haddad faz colagem confusa de peças de Molières

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - À semelhança do título de uma de suas peças, Escola de Molières pede emprestado a Escola de mulheres do autor francês, o trocadilho com sua obra e seu nome. Não é apenas um achado da dramaturgia do diretor Amir Haddad, mas deferência ao caráter quase didático e de homenagem ao teatro de Molière que o encenador propõe com a montagem. Ao levar ao palco O improviso de Versalhes, em que Molière fala da hipocrisia social e do teatro como modo de exibi-la, e a introduzir trechos de várias outras das suas peças, Amir procurou estabelecer painel cênico no qual intenta diálogo entre o popular e o erudito. Tal como Molière, que com sua trupe perambulava atrás de plateias receptivas e sem preconceitos e cortejava a solenidade da realeza, também o diretor e adaptador desta montagem, em cartaz no Espaço Tom Jobim, percorre a obra de Molière circulando entre o riso exemplar e o teatro de rua.

Não é muito fácil para o espectador penetrar neste código duplo, já que a intenção é trazer a plateia para o centro da comédia ao mesmo tempo em que propõe que se pense sobre ridículo das atitudes humanas. Amir não economiza em tempo (são três horas e vinte minutos de duração), atores (28 ao todo) e em verbosidade (acrescenta aos diálogos de Molière outras tantas palavras, como cartas e prólogo), provocando movimentação constante, ainda que sem dramática interna.

Há uma indistinção entre os diversos quadros, como se fossem marcados pelo desejo de celebrar e de aglutinar, de reunir na praça o espectador em torno da representação, numa coreografia que preenche mais espaço do que empresta significação teatral à recepção do público. Por repetidas vezes, esta solução deixa à mostra apenas a fragilidade da dramaturgia que alinhava os diversos textos. As intervenções, como a presença do índio e do negro na corte francesa, brincadeira tropicalista ao som do Guarani, são tributos ao popular que se diluem em meio à padronização estilística do diretor. Quando encena trechos das peças, nada as diferencia do restante, os atores mantêm o mesmo tom recitativo e linear que adotam em Improviso de Versalhes, desgastando-se na repetição do ar, pretensamente festivo, que envolve o espetáculo.

A ampla área do Tom Jobim torna um tanto dispersiva a cena, que se agita mais do que se compõe formalmente. A disparidade de experiências e idades permite ao elenco cumprir atuação coletivizada, em detrimento de individualizações interpretativas. O empenho e o visível volume de trabalho que podem ser vistos nesta Escola de Molières nem sempre se demonstram na sua realização.

Em cartaz:

Escola de Molières

Espaço Tom Jobim, Rua Jardim Botânico, 1.008 (2274-7012). 6ª, às 21h; sáb. e dom., às 20h30. R$ 50