'Anatomia Frozen' se destaca no Festival Internacional de Teatro

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - Em Agreste, peça de Newton Moreno, eles emocionaram o público devido à maneira como encenaram a história de uma lavradora que, a partir da morte do marido, é confrontada com a percepção da própria sexualidade e com o preconceito dos habitantes do povoado onde vive. Agora, os mesmos diretor (Marcio Aurelio) e atores (Paulo Marcello e Joca Andreazza) voltam a surpreender com Anatomia Frozen, espetáculo em cartaz há um ano em São Paulo, selecionado para a programação do Festival Internacional de São José do Rio Preto, encerrado neste fim de semana.

Procuramos nos distanciar do teatro representativo para nos aprofundar na construção da narrativa. Em Anatomia Frozen, caminhamos em direção ao essencial observa Paulo Marcello, sobre a peça de Bryony Lavery encenada pela Cia. Razões Inversas. Trabalhamos com o mínimo na cenografia, nos figurinos. Tiramos a gordura do texto.

Anatomia Frozen entrelaça três narrativas: a de uma psiquiatra que escreve uma tese sobre assassinatos em série, a de um pedófilo e serial killer condenado à prisão perpétua na Inglaterra, e a da mãe de uma de suas vítimas a garotinha Nina, que desapareceu aos 10 anos.

Originalmente intitulado Frozen, o texto foi apresentado aos atores pela atriz Rachel Ripani. Eles decidiram dissecar os personagens de Lavery e, por isto, rebatizaram de Anatomia Frozen.

Procuramos expor os personagens como se estivéssemos numa aula de anatomia, de modo a revelar ao público o que se passa dentro deles sublinha Paulo Marcello. Quisemos observar a figura do serial killer como se fosse objeto de pesquisa. Um doente, emocionalmente desequilibrado, que, num certo sentido, não tem culpa do que faz.

As histórias são contadas em espaço asséptico, hospitalar, condizente com uma abordagem cirúrgica da psicopatia social.

Marcio Aurelio diz que precisamos do máximo de objetividade retórica para alcançarmos o máximo de subjetividade poética sintetiza.

Anatomia Frozen vem colhendo prêmios no decorrer de sua bem-sucedida carreira. Marcio Aurelio ganhou o APCA de Melhor Direção e os atores receberam o prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro, destinado ao elenco da montagem. Graças à repercussão alcançada, o espetáculo tem percorrido o Brasil. No início de 2010, passou por nove capitais do Nordeste (decorrência do Prêmio Myriam Muniz).

É importante mostrar Anatomia Frozen no Nordeste, que tem alto índice de turismo sexual defende Paulo Marcello.

Depois de São José do Rio Preto, o espetáculo volta a São Paulo, dando continuidade à temporada, e estará na próxima edição do festival Porto Alegre em Cena. Paralelamente, os atores viajam com Agreste na esteira do projeto Palco Giratório. Mas a Cia. Razões Inversas não começou sua trajetória com Agreste. Basta dizer que completa agora 20 anos desde a sua fundação por integrantes da primeira turma de artes cênicas da Unicamp. Além de Marcio Aurelio, Paulo Marcello e Joca Andreazza, já passaram pelo grupo diversos atores (Luah Guimarães, Leonardo Medeiros, Eucir de Souza e Debora Duboc) em montagens como A comédia dos erros, de William Shakespeare, A bilha quebrada, de Kleist, Torquato Tasso, de Goethe, Senhorita Else, de Arthur Schnitzler, A arte da comédia, do napolitano Eduardo de Filippo, e Édipo Rei, de Sófocles.

Apesar do investimento num repertório composto por obras de autores renomados e por se debruçar sobre questões específicas (o registro de atuação que transita entre a narração e a interpretação, a busca de uma cena pautada por uma noção de síntese), a Razões Inversas não adota uma perspectiva conceitual como ponto de partida.

Primeiro pensamos no que queremos dizer. A partir de um determinado material, o modo de encenar vem à tona comenta Paulo Marcello.

*O repórter viajou a convite do festival