Romance de Gonçalo M. Tavares explora a relação homem-máquina

*Victoria Saramago, Jornal do Brasil

RIO - Quem conferiu a exposição Rebelião em silêncio, da artista plástica alemã Rebecca Horn, provavelmente permaneceu alguns minutos diante das suas máquinas , ou melhor, esculturas com dispositivos mecânicos , esperando que as engrenagens de cada obra a qualquer momento se pusessem em ação. Pelas probabilidades, algumas esculturas se movimentariam prontamente, e outras demorariam longos minutos para se manifestar. Em qualquer dos casos, a expectativa do público seria mais ou menos a mesma: quando seus motores por acaso serão vistos funcionando? Que movimentos perpetrarão? O que dirá cada obra a cada um de seus espectadores? São enigmas que podem ser compartilhados com o romance A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares, que acaba de chegar às livrarias.

Nessa singular relação homem-máquina tanto na exposição de Rebecca Horn como no livro de Gonçalo M. Tavares o elemento mecânico se revela precisamente o que há de menos previsível ou repetitivo em todo o processo. Em outras palavras, a máquina, ainda que inegavelmente máquina, engendra um dado não maquínico na recepção da obra. O que nos leva a perguntar: será ela de fato máquina? O que faz, no fim das contas, uma máquina?

Joseph Walser não precisa ter contato com a intrigante obra de Horn para que tais perguntas lhe passem pela cabeça, seja no espaço público, seja no privado, no trabalho da fábrica ou no quarto de sua casa, onde mantém uma curiosa coleção, ou até mesmo caminhando pelas ruas. Walser está continuamente ligado às máquinas, às pequenas peças que as compõem como os ossos que comporiam seus dedos, às engrenagens da grande máquina com a qual trabalha numa intimidade que beira o amor. Afinal, a felicidade humana é um mecanismo , nos diz o português Gonçalo M. Tavares em A máquina de Joseph Walser. Com o que nessa felicidade haja de previsibilidade, de ordem, de permanência. E também, inversamente, com a lembrança de estarmos todos, em certa medida, subordinados ao acaso e à sorte, como o provam os jogos de dados aos quais se entrega o personagem, com regularidade quase infalível, nas noites de sábado.

Homem mediano

Nesse frágil equilíbrio se situa nosso protagonista se é que um homem orgulhosa e assumidamente mediano como Walser pudesse se reconhecer protagonista de qualquer evento. No cerne de sua simbiose com a máquina, naquilo que mais se aproximaria de uma constância absoluta ditada pela atenção exata do personagem em suas horas dedicadas à fábrica, aí se encontra o perigo: Joseph Walser amava a sua máquina, mas sabia que esta o odiava, a ele, humano, de tal modo que não o largava de vista; a máquina observava-o constantemente, à procura de uma falha, à espera de uma falha . A partir desse momento, a máquina de Joseph Walser poderia entrar em guerra com a máquina feita de Joseph Walser, isto é, a que era ou deveria ser o próprio Joseph Walser. Em outras palavras, a máquina poderia passar a ser aquilo que quer fazer mal ao seu corpo .

Aquilo que quer fazer mal ao seu corpo: chegamos aqui a um dos pontos fundamentais deste último romance publicado no Brasil da tetralogia O reino, cujo eixo temático é o mal. Instalado nas tensões entre a previsibilidade e o acaso, a ordem e o caos, a permanência e a mudança, o avanço e a inércia, a curiosidade e a indiferença, a dominação e a suscetibilidade, o mal encontra em cada termo e em cada par um lugar potencial para se desenvolver. O mal floresce nos humanos como nas máquinas não à toa ambos parecem, com tanta frequência, participar de uma mesma natureza: Como se fossem materiais que pensam, dissera Joseph Walser . Pois as máquinas de Joseph Walser, numa chave quixotesca, são simultaneamente os inofensivos moinhos de vento e os gigantes prontos para o ataque. Como assim o são os humanos, como daí se faz a guerra. E sobre ela Walser não terá poder maior de atuação do que o de recolher mais alguns objetos para sua coleção, e pelo ato de colecionar tenhamos em mente a tentativa de controlar o incontrolável, de impor limites, regras e estruturas a uma série potencialmente infinita. Ainda que ninguém fosse ter conhecimento dela, ainda que fosse no mínimo desafiador justificá-la por meios racionais, é esta a atitude de Walser: a de um silencioso colecionador.

Menos silenciosos vêm sendo os prêmios e elogios colecionados por Gonçalo M. Tavares, e justificá-los não impõe desafio algum. A máquina de Joseph Walser é desses livros que, minuciosamente trabalhados, não deixam palavras fora do lugar ou frases esvaziadas. Se o próprio autor já declarou, em entrevista, a intenção de compor um livro que o leitor pudesse abrir em qualquer página e nela encontrar algo de significativo, cada capítulo, ou mesmo cada parágrafo, funciona tanto dentro do todo quanto em independência, como a pequena peça metálica de uma grande máquina que, de alguma forma, gozasse de autonomia nessa vasta coleção que é o romance.

Estranhamento

Uma autonomia exata e irresponsável , talvez dissesse Kobler Muller, o chefe de Walser. Pois assim se constroem as frases do romance. É nessa escrita à sua maneira maquínica, exata, de poucas vírgulas, períodos muitas vezes curtos e em ordem direta, um estilo quase burocrático, enfim, é nela que vão se inserindo, imprevisível e irresponsavelmente, adjetivos cujo efeito maior é o de um estranhamento, uma falha no funcionamento geral da máquina. São os sapatos irresponsáveis de Walser, o mês imundo , os edifícios expressivos ou o incêndio experiente . Como se fosse travada uma outra guerra, subterrânea, com essas peças metálicas ainda menores que são as palavras.

É possível que tal descrição tenha levado o leitor a pensar em Kafka, e de fato há algo do autor tcheco em Gonçalo Tavares, como há algo dos romances de Camus, Saramago e alguns outros e isso para citar apenas ficcionistas, sem considerar os inúmeros ecos filosóficos identificáveis na obra. Sem referenciais explícitos na cultura portuguesa, num cenário indefinido que pende para as primeiras décadas do século 20 e com personagens de nomes germânicos como é de praxe nas obras do autor, ressalte-se Tavares constrói um mundo que em tudo soa muito familiar e muito deslocado. Um mundo esculpido, tal qual as obras de Rebecca Horn, com dispositivos mecânicos sempre prestes a entrar em ação. Um mundo pronto para essa guerra interminável com o leitor/espectador que travam as boas obras de arte.

*Victoria Saramago é autora do romance Renée esfacelada e mestre em literatura brasileira pela Uerj.