Livro de Alfredo Bosi esclarece o sentido do termo 'ideologia'

*Marcos Pasche, Jornal do Brasil

RIO - Durante muito tempo, as atividades ligadas ao pensamento padeceram, no Brasil, da especialização que distribuísse seus poucos agentes em áreas distintas, para que fossem mais concentradas e menos amadoras as produções reflexivas. No século 19, não foram raros os casos em que homens da literatura fizeram as vezes de historiadores, sociólogos e antropólogos, dando ocasião para que visões esteriotipadas e monoperspectivadas de aspectos gerais se encravassem solidamente no senso comum.

Com o desenrolar do século 20, tal quadro foi invertido. Mas a cura engendrou um novo mal: a especialização quer-se cada vez mais específica, e seus objetos , recortes e delimitações são, ao fundo, uma amputação entre as variadas possibilidades de compreensão de fenômenos gerais, engano contra o qual já nos alertava Heráclito. Tal tendência é tão forte atualmente que se tornou quase impossível encontrar intelectuais (no sentido lato da palavra) da linha de Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro e Antonio Candido (este, apesar de vivo, recolheu-se a uma aposentadoria total), que exibiam capacidade e paixão para transitar entre as ciências humanas.

Mas uma felicíssima exceção é encontrada em Alfredo Bosi. Distinto crítico literário, ele também formulou interpretações de profundo embasamento historicista. Agora, com Ideologia e contraideologia, revela-se um preparado analista de ideias que interligam, pelo viés mais especificamente político, os campos da filosofia e da sociologia.

A proposta central do livro é identificar e explicitar as acepções mais correntes do termo ideologia, em especial as que lhe atribuíram, por um lado, Karl Marx e Friedrich Engels ideologia com teor fortemente político, significando o pensamento veiculado pelas classes dominantes para legitimar e perpetuar as distorções sociais e, por outro, o historicismo e a sociologia do saber (com Max Weber como protagonista), concebendo ideologia como visão de mundo, particularizada por uma época, região ou grupo.

No desenvolver da tarefa, Bosi registra, com erudição, as diversas nuances ideológicas propostas pelos mais variados pensadores, desde Hegel a Joaquim Nabuco, passando por Simone Weil e Celso Furtado. Mas será ledo engano acreditar que a empreitada do autor circunscreve-se à catalogação de conceitos, teorias e autores, porque sua escrita é movida especialmente por duas paixões. A primeira nasce de uma perplexidade que assim se pode resumir: por que, após tantas transições de estatutos e de poderes, boa parte da humanidade ainda se encontra atolada em brejos de incivilização?

Conjugando ideologias a práticas governamentais e a tendências de época, Bosi contesta as maneiras como burgueses e aristocratas tomaram certas teorias como o evolucionismo de Darwin e o historicismo linearmente progressivo de Condorcet para, a um só tempo, forjar a ideia de que o hoje é sempre melhor que o ontem. Por isso, segundo o autor (em nítidas evocações a Rousseau), tantas barbáries foram justificadas em nome da transição de eras e sistemas sociais, sem que, na prática, houvesse uma efetiva transformação: A expansão econômica não foi nem é penhor de um desenvolvimento mental coletivo, no sentido de conduzir necessariamente a uma universalização do conceito mesmo de 'gênero humano' com todos os benefícios morais que a ideia comporta .

O segundo impulso de Ideologia e contraideologia é proveniente de uma lição inscrita em toda a sua obra: é imprescindível identificar o sim e o não de todas as coisas. Uma vez que as ideologias afiguram-se viciosas por pretenderem nos fazer crer num único viés para a compreensão do real, Bosi colige teorias e práticas distintas para dar a ver que muitas delas, apesar de aparente antagonismo, são coadunáveis. Nesse sentido, aponta-se a religião como fator de alienação mas também de politização, na medida em que alguns de seus membros (o próprio Alfredo Bosi é católico militante) agem para resistir à ordem vigente e à inversão de valores. Noutro âmbito, o da análise literária, o autor não poderia ser mais preciso: Uma sociologia da literatura sem sujeito é cega, uma psicologia da literatura sem o social é vazia .

Cumpre destacar um questionamento fulcral: É possível escapar das redes que as ideologias lançam continuamente sobre e entre os membros de uma sociedade, não excluídos os seus intelectuais? . Daí a justeza do último capítulo, um retorno à leitura de Memórias póstumas de Brás Cubas. Demonstra-se como Machado colheu todas as teorias do seu tempo para desautorizá-las. Tal é o que acontece com Alfredo Bosi, que, além de um estudo aprofundado, faz do seu livro um manifesto para desmascarar a publicidade neoliberal alardeada em programas televisivos, cursos de preparação para concursos públicos e em igrejas, a qual preconiza o bem-estar pessoal e a paz social, mas nos recomenda a agressividade para alcançar um lugar ao sol, ou no mercado.

* Mestre em literatura brasileira pela UFRJ