Georgette Fadel desconstrói obra de Heiner Müller

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - De São José do Rio Preto, SP

Muitas companhias teatrais de São Paulo vêm não só desenvolvendo trajetórias efervescentes como se unindo nos espetáculos que realizam. É o caso, por exemplo, da recente encenação de O idiota, de Dostoievski, capitaneada por Cibele Forjaz, que congrega atores de alguns dos grupos mais bem-sucedidos da chamada cena alternativa. Atriz e diretora com livre trânsito em diversas companhias, Georgette Fadel apresenta hoje, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está precisa se mexer, apropriação do universo do dramaturgo Heiner Müller.

À frente da Companhia São Jorge de Variedades, Georgette Fadel já trabalhou com Forjaz na aclamada montagem de Rainha(s) Duas atrizes em busca de um coração, a partir de Mary Stuart, de Schiller, e passou pela Cia. do Latão, pautada pelo vínculo com Bertolt Brecht, e pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, norteado pela busca do domínio técnico.

Momento de transição

O Núcleo Bartolomeu tem um cotidiano menos caótico do que o da São Jorge. Nós tomamos decisões a cada dia destaca Georgette, mencionando o Núcleo, responsável por Acordei que sonhava, criação norteada por A vida é sonho, de Calderón de La Barca, e Frátria amada Brasil Pequeno compêndio de lendas urbanas, que tinha a Odisseia, de Homero, como ponto de partida.

Mostrado rapidamente no Rio de Janeiro dentro da programação do Tempo Festival das Artes, Quem não sabe mais quem é... marca um momento de transição na trajetória da São Jorge de Variedades. Antes desse trabalho, nós conversávamos sobre o que queríamos dizer. Refletíamos bastante antes de tomar decisões. Agora, partimos para a cena antes do entendimento racional diferencia Georgette, evocando a trajetória de um grupo que já encenou textos como Um credor da fazenda nacional, de Qorpo-Santo, e Biedermann e os incendiários, de Max Frisch.

Georgette Fadel pediu que o elenco (formado por Marcelo Reis, Mariana Senne e Patrícia Gifford) pinçasse fragmentos da obra de Heiner Müller.

Quis que os atores trouxessem o que mais gostavam, seja por acreditarem no que estava escrito, seja por gostarem da forma com que os textos foram estruturados detalha Georgette, sobre o autor de Quartett e Hamletmachine. Eles não se restringiram somente às peças; buscaram também as entrevistas. Começamos a montar esses fragmentos de maneira aleatória.

A apropriação da obra de Heiner Müller lembra a citada desconstrução empreendida por Georgette, Cibele Forjaz e Fadel e Isabel Teixeira em Rainha(s).

Mas o que sobrou das palavras de Müller foi 90%, muito diferente do pouco que restou do texto de Schiller em Rainha(s) explica a diretora.

Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está precisa se mexer foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2010 e viajará para cidades do Acre, de Rondônia, de Minas Gerais e de São Paulo. Concebido para a rua durante os primeiros 20 minutos, o espetáculo encaminha os espectadores para um espaço fechado, geralmente um galpão.

Costumamos apresentar por volta do meio-dia, com a luz natural observa Georgette. Mas também podemos fazer à noite, como aconteceu no Rio, com iluminação teatral.

Nos últimos anos, Georgette Fadel tem se voltado para marcos da dramaturgia brasileira. Capitaneou uma montagem de Gota d'água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, marco na carreira de Bibi Ferreira. Não só encarou o desafio como foi contemplada com o Prêmio Shell. E mergulhou em Um grito solto no ar, trabalho concebido a partir da dramaturgia de Gianfrancesco Guarnieri.

Nesses trabalhos, fui movida pela qualidade dos textos e pelo valor dos artistas que os criaram. Embarco nessas viagens ao passado, sem, porém, perder de vista a conexão com o presente.

O repórter viajou a convite do festival.