Livro de crônicas de Carlos Heitor Cony chega às livrarias

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

RIO - Um dos segredos da crônica é o uso do eu. Geralmente antipática e metida a sabichona, a primeira pessoa, no caso do cronista, há de ser charmosa, inteligente e, para usar esta palavra-ônibus que hoje carrega um monte de significados, interessante. Como Humphrey Bogart, cuja figura nas telas deu origem ao homem interessante.

O eu do cronista Carlos Heitor Cony investe no fascínio do anarquista espanhol ou sul-americano de anedota, náufrago que dá na praia e antes de mais nada pergunta à primeira pessoa que passa: Hay gobierno? Soy contra .

Não por acaso, Cony abre a coletânea Eu, aos pedaços que acaba de sair pela editora Leya com um texto chamado Roteiro , que é um breviário dele (o eu) a favor do contra: Sou contra o ovo de Colombo, a bacia de Pilatos, o tendão de Aquiles, a espada de Dâmocles, os gansos do Capitólio, as asas de Ícaro, o estalo de Vieira, a caixa de Pandora (nos tempos de Machado de Assis não se dizia caixa, mas boceta de Pandora) e contra a trompa de Eustáquio . Conclui ele: Sou contra os valores agregados, o veredicto das urnas, a paz da família brasileira, os dois pontos para mais ou para menos nas pesquisas eleitorais, sou contra todos aqueles que dispensam apresentações, contra os vasos comunicantes e, principalmente, contra as mulheres que fazem os poetas sofrerem, os governantes roubarem, os comerciantes falirem, os filósofos meditarem e os pecadores pecarem .

Na apresentação, o autor explica bem a seu jeito a intenção do livro: Enfrento afinal a epopeia às avessas de uma vida que não pedi, mas cuja desimportante história me pediram para contar . São memórias, só que narradas através das crônicas que Cony, hoje com 84 anos, vem espalhando desde a década de 60 em livros, jornais e revistas. O critério adotado foi o da confissão ou o da memória. Não se trata, portanto, de uma reunião das melhores crônicas ou das 100 crônicas escolhidas . O buraco é mais embaixo.

A primeira e a segunda partes, Infância e Família , vão devolver o leitor ao mundo retratado no livro Quase memória, de 1995, com o qual o escritor retornou à literatura de ficção após um hiato de 23 anos, tempo em que, segundo ele mesmo conta, preferiu viver e ser feliz dentro de uma calça de veludo.

Nestas páginas, predomina a velha e conhecida figura do pai de Cony. Ernesto está impossível: sofrendo de uma dor de cabeça colossal, corta uma batata em finas rodelas, coloca-as na testa, amarra-as com um pano e se deita na cama no meio da tarde; mas, à noite, joga fora as rodelas, come com esganação um frango inteiro e ouve na vitrola Beniamino Gigli cantando árias da Tosca. De outra feita, diante de dona Balbina, portuguesa de bigodes, quitandeira no Lins de Vasconcelos, sentencia: Filho meu não mente! . E, quando o mesmo filho troca uma carrapeta faiscante por um pião escalavrado, solta mais uma sentença definitiva: Você nunca será ninguém, meu filho! .

A melhor história é aquela em que o pai, para alegrar uma órfã de oito anos, inventa o batizado do único brinquedo que a menina possuía, uma bruxinha de pano, desengonçada e triste como ela , com direito a canapé da goiabada, fieiras de bandeirinhas e o próprio Ernesto travestido de padre com um livro encadernado de Eça na mão fazendo o papel de missal.

Aqui cabe dizer que sem as encrencas e invenções do pai, sem o palco do Lins de Vasconcelos e seus arredores, sem os mais antigos carnavais de Paquetá, sem os tempos idos e vividos no seminário do Rio Comprido, Carlos Heitor Cony não seria o escritor que é. Não teria onde ancorar parte da sua ficção adulta.

O jornalismo, profissão que Cony abraçou quando desistiu de ser padre e que lhe rendeu momentos impagáveis como o dia em que sentou na cadeira de Olavo Bilac na falecida Gazeta de Notícias, sai chamuscado das memórias: Uma profissão suja, que dá a quem a pratica a impressão de ser um novo Adão, a distribuir o bem e o mal, colando nomes às coisas e, quase sem perceber, vendendo a alma diariamente por um copo de guaraná e um sanduíche de salame .

Essa indignação sempre acompanhou a carreira do Cony romancista desde a estreia com O ventre, de 1958, passando por Matéria de memória, de 1962 que a editora Objetiva acaba de repor em circulação até chegar ao ponto culminante de Pilatos, em 1973 um livro sujo, sem paralelo na literatura brasileira.

Um pouco da transgressão de Pilatos está no relato Cerimônia para aplacar a gula de um orixá , que narra os preparativos do repórter para entrevistar Maria Escolástica Conceição de Nazaré, mãe de santo Menininha do Gantois: A pièce de résistence foram os galos. Uma das acólitas mandou que eu segurasse um dos galináceos e contasse aos ouvidos dele as minhas desditas, fazendo depois os meus pedidos. Eu não tinha nada a pedir especificamente. Olhei bem o galo. Nem sabia ao certo onde fica o ouvido dos galos. Assustado, temendo que boa coisa não o aguardava, ele estava apavorado. Seu olho redondo me fixava, severamente, como se soubesse a bisca que sou. (...) Perdi a vergonha e murmurei naquilo que julgava ser as ouças do galo uma abominável exigência de minha carne.

A ave deu uma tremedeira e fez suas necessidades: sabia que ia morrer. Mandaram-me que segurasse com firmeza a presa, mas olhasse para o lado. Quando voltei à posição anterior, o galo continuava em minhas mãos, mas sem a cabeça .

Entre todos, o texto que melhor traduz o Cony cronista quiçá seja um dos mais corriqueiros, cumprido para desobrigar-se da faina das redações, daqueles que ele costuma fazer em cinco minutos (nada de mais para quem escreveu Quase memória em 20 dias). É um tratado não sobre o angu do Gomes, e sim sobre o Gomes do angu, que não era baiano como se supunha nem Gomes. Era Vasconcelos e vagamente português , morava em Niterói e se casara na Paraíba com certa Severina que ensinara o macete para fazer o angu à baiana, servido num prato de ágata, pimenta à vontade. Foi desse Vasconcelos que Cony ouviu, pela primeira vez, uma alusão à modernidade , ou seja, a concorrência que lhe copiou o ganha-pão. Deve ter morrido pobre. Apesar de tudo, seu nome ficou na cidade, imortalizado em barraquinhas sem gosto e sem cheiro.

É pena que Cony não trate no livro de suas influências e admirações. Os clássicos Goethe, Stendhal, Tolstói, Flaubert. (Fala de Cervantes, para contar que, como o Quixote, também acha que os moinhos de vento são gigantes.) Os modernos Kafka e Sartre. Os esquecidos Par Lagerkvist (sueco) e Ignazio Silone (italiano), autores de O anão e Fontamara, respectivamente. Os brasileiros ou melhor, os cariocas Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto. Noel Rosa e Ary Barroso.

Em compensação, discorre, na seção Personagens , sobre os grandes com que privou. De Glauber Rocha, diz que foi um Michelangelo baiano, um Da Vinci esparso, um Eisenstein sem partido . Comenta a surpresa que teve Otto Maria Carpeaux ao descobrir que no Brasil havia um escritor como Machado de Assis. Revela os truques e os clones de Nelson Rodrigues, cujo universo dramático tem muito a ver com o dele próprio, Cony. Lembra Clarice Lispector, mulher bonita, mais que bonita: impressionante .

A coletânea encerra com um extenso depoimento. Basicamente, refere-se à militância do autor contra o golpe militar de 64. À época, Cony dava pouca ou nenhuma bola para a política. Escrevera cinco romances entre eles, Informação ao crucificado e ocupava uma mesa de aço logo na entrada da redação do Correio da Manhã que pertencia à equipe de editorialistas. Era responsável pela publicação, três vezes por semana, de uma crônica no segundo caderno sob o título genérico de A arte de falar mal . Os assuntos eram os mais desbaratados: os ossos de Dana de Teffé, as vascas do avô, um duelo de cuspe com o cônsul-geral da Argentina. Era um alienado , como se dizia. Mas foi o primeiro a bater-se contra a quartelada, sempre com o destempero da indignação.