'La Gigantea' usa bonecos e aborda guerra pelas das vítimas infantis

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

PARANÁ - Os artistas nem sempre determinam o curso de seus projetos. Muitas vezes são guiados por eles. À frente do grupo Les Trois Clés, a brasileira Eros Galvão e o chileno Alejandro Nunez tinham outros planos para La Gigantea, espetáculo de bonecos que passou pelo Festival Internacional de Londrina (Filo) e chega neste fim de semana ao Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), encerrando a Mostra Internacional de Teatro (MIT).

De certo modo, nos vemos como médiuns. A partir de dado momento, os projetos começam a andar sozinhos observa Eros Galvão, em visita ao Filo. No caso de La Gigantea, suprimimos a acrobacia aérea. Quando começamos, também pensamos que seria um trabalho voltado unicamente para o público infanto-juvenil, mas acabou ganhando outro alcance

Na peça, o Les Trois Clés lança seu foco sobre um menino, Makou, e sua mãe, que vivem num país imaginário e desértico. A cada dia, eles partem em busca de água para sobreviver. Até que o menino encontra um exército de seres híbridos (metade homem e metade animal) e é capturado. Makou se torna um soldado, mas não perde o sonho de rever a mãe. A Gigantea parece surgir como uma esperança: é uma planta considerada mágica, cujas raízes acariciam o solo, anunciando uma vida nova.

Realidade como matéria-prima

A realidade serviu de matéria-prima na concepção de La Gigantea, montagem conectada com a tragédia das crianças cooptadas para a guerra. A natureza desponta com papel preponderante numa época em que o mundo testemunha as transformações decorrentes da falta de consciência ecológica. Eros e Nunez , porém, não optaram pela trilha documental.

Muitas crianças se perderam totalmente na guerra lamenta Eros. Em todo caso, abordamos e, ao mesmo tempo, nos distanciamos do real. Não investimos num enfoque jornalístico.

Radicados na França, Eros e Nunez acumularam experiência em outras companhias antes de fundarem, em 2004, a Les Trois Clés. La Gigantea é o terceiro espetáculo da companhia. O primeiro trazia no título a expressão que batizou o grupo. O segundo foi Silêncio, diretamente inspirado em A casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, marcante drama da repressão feminina centrado em mulheres obrigadas a obedecer a um luto de anos imposto pela personagem-título.

Transpusemos o texto para uma linguagem gestual. Não trabalhamos com palavra, a não ser em forma de canto explica Eros Galvão. Não que não gostemos dela. Entretanto, optamos por suprimi-la na tentativa de acessar o inconsciente. E procuramos dialogar com outras culturas ao redor do mundo sem a barreira da língua

Através dos bonecos e de eventuais presenças de atrizes, Eros e Nunez potencializam as pulsões de opressão e liberdade que marcam uma peça como Bernarda Alba:

Como Lorca, eu vejo o mundo como uma caixa de marionetes. Elas possuem uma alma misteriosa. Tenho a impressão de que somos sempre manipulados pelo acaso e pelo espírito da peça.

Há várias explicações para a decisão de substituir o humano pelo boneco ou de estabelecer uma contracena entre ambos.

O boneco tem o poder de transmitir algo que o ser humano tende a sentir pudor justifica Eros. É quase indecente ver o homem tratando em cena de questões tão próximas dele. É como se tivéssemos dificuldade em nos deparar com nosso espelho.

O boneco traz à tona uma possível busca pela perfeição, ambicionada por determinados encenadores. Gordon Craig, não por acaso, formulou o conceito de supermarionete. Para ele, o ator, munido de sua inevitável imperfeição, impossibilitava a concretização de uma obra de arte ideal. Outro encenador, Tadeusz Kantor, também desponta como referência no trabalho da Les Troi Clés, que, além dos espetáculos mencionados, mesclou circo, dança, música e teatro de bonecos em Macondo a partir de Cem anos de solidão e A incrível e triste história da Cândida Erendira e sua avó desalmada, obras de Gabriel García Márquez em parceria com a Catibrum Teatro de Bonecos, de Belo Horizonte.

Daniel Schenker viajou a convite da organização do festival