'Divagações', livro de Stéphane Mallarmé, ganha tradução brasileira

Ieda Magri*, Jornal do Brasil

RIO - Divagações, único livro em prosa escrito por Stéphane Mallarmé, publicado pouco antes de sua morte em 1897, ganha tradução brasileira. O investimento é da editora da UFSC, que publica o trabalho de Fernando Scheibe professor, pesquisador, poeta desenvolvido em seis anos de pós-doutoramento na Unicamp. O livro tem apresentação de Scheibe e dois ensaios, entre eles o valioso O túnel, o poeta e seu palácio de vidro , de Marcos Siscar, que passa em revista a fortuna crítica de Mallarmé e atualiza o valor de sua releitura.

Apresentado por Mallarmé como um livro como deles não gosto, aqueles esparsos e privados de arquitetura , Divagações reúne textos, muitos reescritos, distraídos de sua publicação corrente , acrescidos, rejuntados, refundidos, publicados em diversos periódicos, entre eles Revue Blanche e Revue Wagnérienne, como informado pelo próprio Mallarmé na seção Bibliografia , que inclui um painel do contexto de escrita e de recepção dos textos.

Ainda na nota de apresentação, Mallarmé adverte o leitor que, embora a impressão de bricolagem, as divagações aparentes tratam de um tema de pensamento único . Esse tema único, para o tradutor brasileiro, diz respeito às possibilidades políticas da poesia.

De fato, as 10 seções que organizam textos relacionados à música, ao teatro, à dança, ao papel da liturgia religiosa ou musical na sociedade contemporânea, todas elas gravitam nesse tema central da posição do artista diante do poema. Mesmo a terceira seção, Alguns medalhões e retratos de corpo inteiro , feita de retratos de escritores e pintores, necrológios mesmo, deixa entrever várias questões estéticas da poesia e o debate em torno delas.

Assim, em Villiers de L'isle-Adam lemos: ... a velha métrica francesa (não ouso acrescentar a poesia) sofre, no instante que é, uma crise maravilhosa, ignorada em qualquer época, em qualquer nação, em que, entre os mais zelosos remanejos de todos os gêneros, jamais se toca na prosódia .

No retrato de Rimbaud, fica evidente a grande admiração de Mallarmé, principalmente quando aquele deixa de escrever poesia. Sobre o retrato de Rimbaud feito por Verlaine, acrescenta seu próprio traço: O homem era grande, bem formado, quase atlético, um rosto perfeitamente oval de anjo no exílio, com cabelos castanho-claros em desordem e olhos de um azul pálido inquietante. Com não sei quê orgulhosamente crescido, ou mal, de moça do povo, acrescento, de seu estado lavadeira, por conta das vastas mãos, pela transição do quente ao frio avermelhadas de frieiras. As quais teriam indicado ofícios mais terríveis, pertencendo a um rapaz. Soube que elas tinham autografado belos versos, não publicados: a boca, com sua prega de manha e malícia, não recitou nenhum .

Ainda nos retratos se pode ver a fina ironia de Mallarmé. Sobre Laurent Tailhade, desfere: Tanto barulho destoou.. Os jornais por pouco não o desfiguraram . Isso escrito com os dois pontos mesmo e os devidos espaços próprios ao estilo mallarmeano: as duas frases isoladas com grandes espaços em branco entre uma e outra e entre os parágrafos que as antecedem e sucedem. Ao abrir o livro nesta página, mais que o título, são essas duas frases que saltam à vista.

Sobre esse modo de grafar, o próprio Mallarmé dirá na Bibliografia : Razão dos intervalos, ou brancos? Que o longo artigo ordinário de revista, ou enchimento, indica, forçosamente, ao olho que as distingue por lugares, entretanto, algumas escamas de interesse . Ou cada frase, a se destacar em parágrafo ganha por isolar um tipo raro com mais liberdade que no carreto por uma corrente de volubilidade .

Para Marcos Siscar, essa incorporação de silêncios não deixa de valer como interrupções mais longas na leitura: ela tem valor estilístico, sobretudo, como um modo de marcar um intervalo (um espaçamento) do sentido .

Siscar dirá que a frase é o elemento central da prosa de Mallarmé, por assim dizer, o verso da prosa. Mallarmé, tanto na Bibliografia como na seção Quanto ao livro , define essa sua escrita como poema crítico , no qual o verso é ritmo, dicção. Verso há tão logo se acentua a dicção e, portanto, a prosa vem, neste Divagações, bastante relativizada, ao ponto de Fernando Scheibe, em sua apresentação do livro, sempre grafar a palavra entre aspas. Toda essa prosa, o poema crítico, que engendra o livro sob um pensamento único , está alavancada na extrema fragmentação que deriva, também, da pontuação idiossincrática, no dizer de Siscar.

Divagações se fecha evidenciando ainda mais o pensamento que está por detrás da estratégia da forma fragmentária acentuada pela pontuação: Mil exigências, muito singulares, aparecem ao uso nesse tratamento do escrito, que percebo pouco a pouco: sem dúvida há meio, aí, para um poeta que por hábito não pratica o verso livre, de mostrar, no aspecto de trechos compreensivos e breves, na sequência, com experiência, tais ritmos imediatos de pensamento ordenando uma prosódia .

A presente publicação é uma boa oportunidade para retomar leituras sempre valiosas para o pensamento sobre a poesia brasileira e para o estudo de uma obra de Mallarmé tão pouco conhecida entre os não especialistas.

* Ficcionista, autora do livro Tinha uma coisa aqui (7Letras). Doutoranda em literatura brasileira.